2024-04-16

TOURADA: a sua génese no culto de Mitra.


Mitra, Tauroctonia, séc. II ou III d.C., Fiano Romano, Roma;
Paris, Museu do Louvre.

A perseguição à tauromaquia faz parte da actual "guerra cultural", um conflito entre os valores considerados progressistas ou liberais, em confronto com os valores tradicionalistas ou conservadores. O seu objectivo é afrontar diversos grupos sociais nacionalistas e patriotas, que tentam confundir com ultranacionalistas e chauvinistas, na esperança vã de facilitar o caminho da esquerda globalista na implantação do seu sistema de valores; tese esta comprovada pelo envolvimento de diversos movimentos sectários de extrema-esquerda em todas as organizações e manifestações antitaurinas sob o pretexto de combater a crueldade animal. Estes falsos paladinos passam incólumes perante a existência de muitos outros gravíssimos problemas, tais como desumanidade da existência de muitos milhares de sem-abrigo cuja resolução devia ser priorizada …

Tourada, estocada final, México.
Porém, o marxismo cultural com a convocação à discussão pública destes temas fracturantes que instigam à discórdia – onde se incluem as milenares e naturais alterações climática –, têm esperança de que um povo dividido e enfraquecido se torne mais obediente e receptivo à imposição do controle social. Esta técnica já conhecida há cerca de um século, apenas provoca a resistência à subversão dos valores tradicionais, devido ao apego inquebrantável de muitos portugueses à secular cultura tauromáquica.

A sociedade, sendo ou não, adepta da festa-brava, deve opor-se à limitação dos seus direitos relativamente a esta longa tradição histórica, pois, quem não perfilha estas práticas culturais ancestrais, deve afastar-se delas, ou combatê-las pela palavra; e não tentar a sua proibição, impondo aos outros as suas preferências de ver o mundo, seja sob que pretexto for… 

A cedência à intolerância neste campo, é o primeiro passo para nos conduzirem à proibição da caça, da pesca, do abate de qualquer espécie animal em matadouros; compelindo-nos à adopção de um regime vegetariano com todos os malefícios próprios da falta de consumo de proteína animal. A proibição deste modo de vida, irá levar-nos muito mais longe na senda de proibições, tal como uma série de acontecimentos sociais contestados pela extrema-esquerda…

A própria igreja católica, por iniciativa do Papa Pio V (1504-1572) em 1-XI-1567 promulgou a primeira Bula papal – “De Salutis Gregis Dominici” – proibindo as touradas pela sua alegada crueldade “contrária à piedade e caridade cristãs”; quiçá atemorizada pela sobrevivência, ainda que ténue deste vestígio ancestral do culto do deus Mitra, ao qual votavam um grande ódio, ao ponto de retractarem Mitra como Belzebu/Demónio, representado pelos teólogos do Concílio de Toledo (427 d.C.) como um touro medonho.

Ao mesmo tempo, o cristianismo aparentemente preocupado com crueldade animal, viria a promover a tortura e morte na fogueira de milhares de hereges em espectáculos públicos da mais degradante selvajaria. A quase totalidade dos soberanos reinantes na Península Ibérica, não aderiram aos desígnios desta Bula devido à pressão das camadas populares. A mesma recusa impõe-se relativamente à proibição da tauromaquia actual.

Se há um comportamento bárbaro no sacrifício do touro como um animal de culto, ele acabará por extinguir-se naturalmente com o progresso da humanidade, tal como se extinguiram os sacrifícios humanos para apaziguar a ira dos deuses …

 

Tauromaquia e Mitraísmo

Auroque, Gruta de Lacaux, França;
15.000 a,C.
A origem da relação do Homem com o touro nestes “rituais”, perdem-se na poeira do tempo. São prova disso as suas várias figurações na arte rupestre do Paleolítico Superior em Portugal (Foz Côa, 18.000-15.000 a.C.) ou em França (Lascaux, 15.000-13.000 a.C.), que expressam a admiração e veneração do Homem pela sua bravura.

Um dos seus antepassados pré-históricos, o possante Auroque, extinto em 1627, foi provavelmente visto como um animal mítico, símbolo da virilidade e da força, quiçá passível de ser sacrificado para apaziguar os Deuses, ou propiciar os seus favores, substituindo-se aos sacrifícios humanos.

Deste modo, o enfrentamento do touro pelo Homem e o seu sacrifício, foi a forma simbólica deste nobre animal ser reverenciado ao apropriarmo-nos das suas principais qualidades: coragem, bravura, força bruta, fecundidade e poder.

Bisonte ou Auroque, Gruta de Altamira,
Santillana del Mar,  Espanha; 10.000 a.C.
Este “ritual” manifestou-se nas mais diversas sociedades mediterrâneas, como podemos observar no milenar culto de Mitra (Mithra, o deus da luz); na Epopeia de Gilgamesh (Mesopotâmia, II milénio a.C.) onde a morte do touro é uma mistura da pega pelos forcados na tourada portuguesa com a estocada final na tourada espanhola, após o que lhe arrancam o coração para oferecer ao deus-sol, aplacando a sua ira; nos frescos do palácio de Knossos em Creta (Grécia), civilização Minóica; nos mitos da antiguidade grega como o do Minotauro (uma espécie de «descarga catártica» do colectivo).  

O auge do sacrifício ritual do Touro – não pelo prazer do sofrimento infligido, mas pela veneração devida ao seu estatuto sagrado ao longo dos milénios – foi atingido no ancestral e misterioso culto oriental do deus Mitra – Mitraísmo –, provavelmente nascido na Índia, mas com as suas raízes próximas na antiga Pérsia (actual Irão), que remontam ao segundo milénio a.C., espalhado inicialmente por todo o Mediterrâneo. Este culto, difundido pelos escravos libertos, mercadores da Ásia Menor e legionários romanos que serviram no Médio Oriente e no Mar Egeu, concorreu em todo o império romano com os primórdios do cristianismo (séc. I d.C. a IV d.C.) que incorporou alguns dos seus princípios.

Mitra, Mitreu de Sidon (389 a.C.),
Libano; Paris, Museu do Louvre.

Mitra, no panteão mazdeísta da antiga Pérsia, era "Juiz das Almas", protector da verdade e inimigo do erro, sob uma concepção dualista que representava a existência do bem e do mal.

O Mitraísmo veio a ser eliminado nos fins do século IV d.C. com a perseguição feroz feita por Teodósio I (347-395), o qual a 27-II-380 d.C. declarou o cristianismo a única religião imperial legitima, proibindo a “adoração pública” dos antigos deuses. Foi este o golpe mortal desferido sobre Mitra, cujos templos foram sistematicamente arrasados, ou reaproveitados para igrejas, ofícios e habitação, e cujas imagens foram destruídas e os seus rituais proibidos; pelo que o cristianismo passou de perseguido a feroz perseguidor, tentando apagar todos os seus vestígios, apesar de se ter apoderado de alguns dos seus mais simbólicos rituais que transfigurou, por não os poder apagar da memória popular. Daí a igreja ter pretendido a proibição da corrida de touros com o argumento da sua desumanidade, enquanto torturava e queimava nas fogueiras da Inquisição milhares de hereges…

Mitra, Museu Arqueológico de Córdova, Espanha. 
Apesar da repressão sobre a religião derrotada, os seus rituais arreigados nas camadas populares passaram à clandestinidade e foram praticados em segredo durante muito tempo. Um destes, que consistia na matança do deus-touro e no derramamento do seu sangue (tauroctonia) para espargir os iniciados num baptismo ritual, transfigurou-se subtilmente na tourada portuguesa onde o toureiro/matador, apeado, matava o touro com uma certeira estocada final – prática actualmente proibida. Antigamente, depois da lide estar completa, e do abate dos touros, passava-se a um repasto que mais uma vez nos remete para os banquetes rituais mitríacos.

Este ritual simboliza a vitória sobre as forças das trevas. Das feridas da fera sacrificada brotava trigo (pão) e uvas (vinho), símbolos da morte e ressurreição, que posteriormente se tornam comuns ao cristianismo (Última Ceia / Eucaristia).

Mitra tinha no touro um imprescindível animal sacrificial, pois, o seu sangue era um meio de expiação e purificação.

Também na crença cristã, os seus seguidores são salvos pelo sangue de Cristo ao morrer na Cruz, não havendo o menor prazer na sua morte, pois este é um sacrifício expiatório pelos pecados da humanidade que, deste modo, são redimidos e recebem a salvação eterna.

Mitra,Tauroctonia no Mitreu de Heddeerheim, Alemanha.

Quanto a Mitra é representado no momento exacto da morte ritual do Touro, rigorosamente sempre da mesma maneira. Ostenta um barrete frígio na cabeça que na Roma antiga era o atributo dos escravos libertos, e segura nas narinas do touro com a mão esquerda, com a perna esquerda dobrada em ângulo e pressionando a coluna da fera que ritualmente é morta com um gládio pelo seu lado direito, espetando em direcção ao coração do touro, o qual está ladeado de um cão, uma serpente, um corvo e um escorpião, acompanhado por vezes também de um leão e de uma taça.

Para culminar esta complexa ilustração, temos à esquerda a imagem do Sol (o Sol Invictus, ou Sol Inconquistável), enquanto que a do lado direito é a Lua, identificável pelo crescente.

Nos lados, esquerdo e direito, podemos ver ainda duas figuras humanas: Cautes (com a tocha acesa para cima) e Cautopates (com uma tocha para baixo), metáforas do nascer e do pôr do sol, ou da “vida nova” e da “morte”. Tudo isto representado no interior de uma caverna, com complexos significados astrológicos/simbólicos.

O local desta celebração era o Mitreu (Mithraeum) – gruta ou caverna, natural ou artificial que é  uma metáfora do cosmos – onde ocorriam estes “mistérios” envoltos no maior secretismo, e onde os fiéis se reuniam em pequeno número para o baptismo, seguido de uma refeição em comum, sentados nos bancos de pedra ao redor das paredes. Como sobreviventes destes pequenos e fascinantes “templos” que chegaram até nós, temos o mitreu de Óstia, cidade portuária a 25 Km de Roma; o mitreu da domus de Lugo (212 e 2018 d.C), na Galiza, Espanha (com a inscrição “Ao deus invicto Mitra, Gaio Victório Victorino, centurião da legião VII Gémea Antonianina Pia Felix …”; “Casa del Mitreo”, Mérida, Espanha (155 d.C.); e muitos outros convertidos em criptas de igrejas cristãs, as quais se sobrepuseram a este culto.

Mitreu particular de Lugo (212 e 218 d.C),
reconstituição, Galiza, Espanha.
Mitreu de Óstia, a 25 Km de Roma, Itália.










Destas celebrações não nos ficaram narrativas escritas pelos mitraístas, pois estas terão sido escamoteadas pelo cristianismo triunfante. Sobre este culto, na sua variante romana, restam evidências arqueológicas e inscrições, algumas na Península Ibérica, assim como na literatura Grega e Latina.

Mitra, um Deus exaltado pelos Mistérios, romanos (Mitraísmo romano), popularizou-se espalhou-se pelo Mediterrâneo competindo com o Cristianismo nascente, mas acabou por ser suplantado por este. Há dezenas de reproduções antigas deste ritual de Mitra que a arqueologia tem posto a descoberto.

Mitreu de São Clemente, do Séc. II ao IV a.C, por baixo da
Basílica de São Clemente, Roma.

Sabemos que o sangue do touro imolado ritualmente era usado para o baptismo mitríaco que consistia no aspergir do sangue ainda quente do touro sobre o iniciado, no taurobólio, o local de sacrifício. Este era o mais importante sacramento de alguns ramos do mitraísmo, um ritual de purificação e renovação da maior importância simbólica, imortalizado em imensas esculturas e baixos-relevos que chegaram até aos nossos dias. Este ritual, simbolizava a morte e a ressurreição, tal como no cristianismo bem mais recente que incorporou alguns conceitos mitríacos, entre eles os banquetes sagrados que foram imortalizados na Última Ceia. Estes espaços eram diminutos e alguns deles estão hoje incorporados nas criptas das igrejas cristãs sobre eles edificadas, tal como são os casos da catedral de Canterbury e São Paulo, em Londres; do mosteiro de Monte de Saint-Michel, em França; algumas catedrais de Paris; e a própria catedral de São Pedro em Roma.

Mitreu das Termas de Caracalla (23x10 metros), Roma.
Os fiéis do culto de Mitra, partilhavam o pão, o vinho e a água; além de comerem a carne do touro. O seu baptismo e banquete ritual, tal como a santificação do Domingo, foram incorporados no Cristianismo; assim como o 25 de Dezembro (junto ao solístico de Inverno) – festa do Sol Invicto dos romanos – então data da celebração do nascimento de Mitra, que foi adorado pelos pastores, origem do Natal cristão.

A tauromaquia actual é uma reminiscência dessas influências milenares, geneticamente entranhadas em muitos povos do Mediterrâneo, uma espécie «fuga por onde se esvaziam a violência recalcada, os instintos perversos, a desordem psíquica, os efeitos da opressão e das normas sociais» (ESPÍRITO SANTO, Moisés. O Touro na Bíblia: Símbolo de Deus e Vítima Sacrificial. Mediterrâneo, 1995, 5/6, 11-23). 

Estela de Clunia de 14-37 d.C., Burgos, Espanha.
O culto de Mitra terá nascido em 1200 a.C. e aparece nos Vedas como uma divindade solar, deus da amizade e dos negócios, cujos rituais foram evoluindo ao longo do tempo, conforme as geografias onde se foi implantando, tendo influenciado o cristianismo, assim como a tauromaquia que gira à volta do seu principal ritual que é a morte do touro — a “tauroctonia”, o acto mais simbólico e central no mitraísmo. 

Com origem na caça e na preparação do Homem e dos equídeos para a guerra, esta ancestral confrontação do homem com o touro sempre marcou os momentos de celebração mais importantes da sociedade portuguesa e espanhola; tais como os casamentos e coroações reais, nascimento de príncipes, preparações para batalhas, cerimónias religiosas, acções de solidariedade, homenagens a chefes e dignitários de Estados.

Venatio, uma espécie de "tourada" romana, perseguindo
diversos touros até ficarem cansados para serem
segurados pelos cornos e depois executados. O uso
de uma capa está registado pela primeira vez na época
do imperador Cláudio (10 a.C.-54 d.C.).

A corrida de touros é um espectáculo tradicional que consiste na arte de lidar touros bravos, tanto a pé quanto a cavalo, combinando habilidade, coragem e tradição, com ênfase na estética. Os trajes dos toureiros, os movimentos elegantes durante a lide e a música que acompanha o espectáculo contribuem inegavelmente para a sua percepção como uma forma de expressão artística, a qual tem ao longo do tempo inspirado outras formas de arte, como a pintura, a literatura e a música. Apesar de alguma controvérsia que suscita, deve ser preservada como património cultural.

Os primeiros registos desta cultura (corrida à Portuguesa) remontam ao século XII, sendo que a sua expressão mais forte sempre decorreu na Península Ibérica, embora seja muito comum no Sul da França e em diversos países da América Latina, assim como na China, Filipinas e Estados Unidos, graças à influência Ibérica.

Campinos conduzindo os touroa à praça.
Em sentido amplo, a tauromaquia é uma actividade económica relevante que inclui todo o desenvolvimento prévio do espectáculo, desde a criação do touro, a confecção dos trajes dos participantes, além do desenho e publicação do cartel taurino e outras manifestações artísticas ou de caracter publicitário que variam de acordo com os países onde a tauromaquia subsiste.

A este espectáculo-ritual aderiram destacadas figuras históricas, literárias e artísticas, das quais destacamos: o rei D. João V, Marquês de Marialva, Fernando Pessoa, Hemingwai, Pablo Picasso, Salvador Dali, etc.

Vivemos num mundo injusto e cruel – com fome, guerra, genocídios e muita maldade humana – onde, comparativamente, a “crueldade” da tauromaquia acaba por ser insignificante e faz parte da nossa “herança selvagem”.

Comprazer-se com o sofrimento de um nobre animal como é o touro, jamais é o objectivo de um aficionado das corridas tauromáquicas como malevolamente propagam os antitaurinos, pois, sempre que um toureiro por inépcia inflige algum sofrimento desnecessário ao animal, é vaiado por toda a praça.

Toureio a cavalo.

Toureio a pé com capote.










Não podemos deixar de notar que o abate do gado em muitos matadouros – industrialização da morte animal –, assim como a criação de várias espécies para alimentação humana, é feita em condições sanitárias deploráveis e de grande sofrimento animal, as quais não têm eco na opinião pública devido à sua falta de visibilidade. O que não se vê, não dá votos aos oportunistas da política…

A "FESTA BRAVA", no ano de 2019 foi responsável pelo abate de apenas cerca de 800 touros de lide, enquanto o “bife no prato”, que muitos antitaurinos não dispensam, abateu 337.330 bovinos (dados do Instituto Nacional de Estatística)

Toureio a pé com capa.
Toureio a pé com capote.









A tourada é uma arreigada tradição cultural de crenças, valores, tradições e costumes em algumas regiões como no Ribatejo e Alentejo, não percepcionadas como tortura animal, a qual podia ser minorada com a morte do touro na praça, quer na arena, quer no curro. Para os seus cultores, estas manifestações de grande beleza visual, fazem parte do nosso património cultural e têm raízes históricas profundas que, de uma penada, não podem ser postas em causa…

A nossa identidade cultural, não pode estar sujeito a ideologias sectárias, pois os touros abatidos em consequência das corridas, são uma percentagem residual de pouco mais de 0,2% em relação aos bovinos destinados ao “bife no prato”… 

Campinos.
Por isso, jamais devemos deixar morrer a festa brava, enquanto esta durar, para além de todas as considerações humanistas que pretendam a alteração das normas até aqui vigentes.

Como já alguém disse a propósito da tourada “celebrar a morte é celebrar a vida (…) e um dos graves problemas da civilização ocidental foi não saber celebrar a morte e, portanto, tem dificuldade em celebrar a vida”, acrescentando ainda que a tauromaquia “é a relação mais saudável que um homem pode ter com a natureza em comparação com animais que ficam imóveis o mínimo de tempo possível, cheios de hormonas, para serem abatidos e comidos”, censurando ainda aos antitaurinos a sua “arrogância do mundo urbano em relação ao mundo rural” (Daniel Oliveira – jornalista, colunista e comentador).

Não deixemos alterar os hábitos e costumes da sociedade, pelos que não foram por nós mandatados para isso.

Pegadores.

Pega (forcados)










Os touros de lide são animais fascinantes, criados com a única finalidade de irem à praça para serem lidados. Se a tourada desaparecer, também o touro bravo será uma espécie em extinção por falta de utilidade, além da imensa economia que se desenvolveu à sua volta. O cavalo lusitano, também terá o seu destino ameaçado, assim como o ecossistema das terras férteis da lezíria que permitem a criação do gado bravo.

A relatividade dos conceitos e julgamentos morais aplicados à tourada, estão inseridos num contexto cultural e místico que transcende o efeito físico numa representação simbólica da luta espiritual onde a coragem humana vai enfrentar os medos representados pela força bruta e instintos primitivos do touro. Tudo isto, num processo de superação dos traumas e medos que resistem no inconsciente humano — e jamais no prazer do sofrimento infligido, como alegam malevolamente os antitaurinos. Este nobre animal tem a capacidade de libertar meta-endorfinas durante a lide para aliviar a dor e reduzir o desconforto associado ao stresse.

Por tudo isto, estamos aqui a lutar em prol da sobrevivência da festa brava, à qual as minhas costelas, com origem no do Ribatejo, não me deixam escapatória possível.

 

                João Trigueiros


Cavaleiros.

 

Cavaleiros.










Ver:

Generalidades

https://observador.pt/2024/01/03/touradas-com-mais-de-400-mil-espetadores-em-2023-afirma-a-protoiro/

O culto de Mitra na Beira Interior

https://www.altotejo.org/acafa/docsN2/O_Culto_de_Mitra_e_sepulturas_em_rocha.pdf


2024-03-08

NEUTROS e OMISSOS que passam a vida "em cima do muro"…

(Divina Comédia ― O Inferno de DANTE)


“Portal do Inferno”, “Vestíbulo”, destinado aos “neutros”


DANTE ALIGHIERI (1265-1321), autor da Divina Comédia (século XIV) – com 3 livros: "Inferno", "Purgatório" e "Paraíso", -- foi um dos maiores autores clássicos da literatura universal.

É-lhe atribuído a descrição de que “O canto mais sombrio do inferno está reservado para aqueles que mantêm a neutralidade em tempos de crise moral".

Dante Alighieri (1265-1321)
No Canto III, ele descreve o “Portal do Inferno” e o “Vestíbulo”, destinado aos “neutros” que ele desconsidera – por covardes, indecisos, cruéis, ignóbeis e amorais –, pois não são capazes de tomar partido, nem pelo bem nem pelo mal, e por isso são excluía-os do céu.

Como alternativa, reservava-lhes um lugar no "Vestíbulo do Inferno" ou "Ante-Inferno", reservado aos mortos que não podem ir para o céu nem para o inferno.

A sua recusa da escolha, é a indecisão e, por isso, o “Vestíbulo do Inferno” é a sua morada devido à sua covardia de passarem a vida "em cima do muro". Eles não assumem compromissos, nem tomam decisões firmes, por acharem que assim perdem outras oportunidades.

Estes covardes, no “Vestíbulo” do Inferno, são condenados a correr em filas atrás de uma bandeira, enquanto perseguidos e torturados pelas picadas de vespas e moscões, ao mesmo tempo que vermes nojentos roem suas pernas.

O seu castigo é vaguear eternamente em busca de uma bandeira que os leve de um lugar a outro sem destino fixo. Já que em vida decidiram não seguir ninguém, agora correm atrás de uma ilusão vazia que não os leva a lugar algum. O sofrimento adicional é causado por eles mesmos, pela inveja que os corrói em relação aos verdadeiros condenados: aqueles que vão aos círculos inferiores para sofrer por toda a eternidade e são, em sua opinião, mais afortunados, pois, pelo menos experimentarão tormento pelo que fizeram e não pelo que não fizeram.

É no vestíbulo do Inferno que habitam os indiferentes, por não terem praticado nem o bem nem o mal com o tempo que Deus lhes deu. Por isso, nem o céu, nem o inferno os aceitam. Aí permanecerão, abandonados, pois a misericórdia e a justiça divina ignora-os, e até, os que praticaram o mal, observam aquelas almas com desprezo.

Tudo isto…

Anubis, pesando o coração.
Tudo isto, a propósito daqueles “neutros” que passam a vida "em cima do muro", sem tomar partido do que quer que seja e, por omissão deixam a condução do nosso destino colectivo nas mãos de quadrilhas de bandidos, ignorantes, salafrários, os quais transformam a nossa vida colectiva num verdadeiro Inferno de fazer inveja ao Inferno de Dante...

Perante tudo isto, quando o Anúbis dos Antigos Egípcios pesar na balança a minha alma-coração, não sofrendo eu da cobardia da indiferença, tenho a certeza que Osíris, no seu julgamento divino remeter-me-á para um qualquer destino eterno que não seja o equivalente ao “Vestíbulo” do Inferno de Dante.

                            JT

2023-09-03

A ANGÚSTIA CLIMÁTICA, ou a idiotice em roda livre.

 

Já agora, caríssima psicóloga ELIZABETH MARKS, explique-nos as suas iluminadas propostas para combater as “cíclicas” alterações climáticas que se sucedem há milhões de anos e alteraram a superfície da Terra em diferentes fases de seu processo de desenvolvimento. Parece querer ignorar, ou ignora mesmo, que a superfície do nosso planeta é dinâmica e, ao longo de milhões de anos, a nossa atmosfera passou por diversas transformações climáticas e geológicas que afectaram diversas espécies (fauna e flora), só sobrevivendo as que se foram adaptando. 

As alterações climáticas não se combatem. Elas apenas requerem, acima de tudo, que a humanidade se adapte às novas condições, caso queira sobreviver…

Há quatro ou cinco mil anos, no Mediterrânio Oriental, cidades inteiras desapareceram por abandono dos seus habitantes devido a secas de proporções bíblicas, o mesmo acontecendo na Mesopotâmia, assim como há muitos milhares de anos florestas inteiras transformaram-se em desertos, e vice-versa, tudo isto documentado geologicamente e por vestígios arqueológicos.

É do conhecimento científico, mas ignorado por si e pelos corifeus que a acompanham neste embuste, que as alterações climatéricas, em grande parte ficaram a dever-se às variações orbitais – ou ciclo de Milankovitch – que ocorrem periodicamente, fazendo a radiação solar chegar de forma diferente em cada hemisfério terrestre de tempos em tempos com maior ou menor amplitude. 

Por causa destas variações orbitais (impossíveis de combater), assim como devido a violentas erupções vulcânicas e outras causas (queda de asteróides, etc.), já sofremos um número infindável de gravosas alterações climáticas que terão sido responsáveis por várias extinções em massa (6 delas nos últimos 400 milhões de anos) que levaram ao desaparecimento completo de várias espécies; inúmeras glaciações com duração de milhares de anos; e alterações do nível da água do mar devido à fusão dos glaciares e do gelo da Antárctica, associados ao aumento do volume das águas por expansão térmica.

Caríssima Elizabeth Marks, registe aí, para o seu cabal esclarecimento, que o último período glacial terminou há cerca de 15 mil anos, ao qual sucede o actual interglacial, caracterizado por um efeito de estufa, para o qual as actividades humanas dão apenas um pequeníssimo contributo residual. Nos últimos 650 mil anos, houve em média sete ciclos de avanço e recuo glacial, com os consequentes períodos de aquecimento global, no qual estamos e irá perdurar provavelmente por “mais de cinquenta mil anos” (Berger A, Loutre MF (2002), «An exceptionally long interglacial ahead?» [Uma Frente Interglacial Excepcionalmente Longa?], Sciense, 23-08-2002, Vol 297, Edição 5585, págs. 1287-1288).

Mais ainda. 

Sugerimos à citada psicóloga, arregimentada por quem quer implantar o medo entre a população com vista à prossecução dos seus inconfessáveis objectivos de dominação ideológica, que não enrede na sua teia de mentiras os jovens que estão a ser alienados pelo exemplo de uma jovem sueca aloprada, à qual, uma série de adultos imbecis dão crédito. Tudo isto sob o beneplácito daquele inoperante e moribundo “albergue espanhol” a que dão o nome de ONU…


2023-06-01

O Pintor ARNALDO BENAVENTE FERREIRA (1923-2000)

 
Arnaldo Benavente Ferreira (1923-2000)

ARNALDO BENAVENTE FERREIRA (1923-2000) foi um dos grandes pintores da temática lisboeta, com o qual me cruzei muitas vezes na segunda metade da década de 70, e passo aqui a evocar.

Estes fugazes encontros, ocorreram muitas vezes ao cair da tarde quando eu descia o Chiado em direcção à estação do metro do Rossio, depois de terminar as aulas na Escola Superior de Belas Artes que então frequentava.

Artista incompreendido, tinha uma compleição seca e elegante que destoava dos repetidos insultos que vociferava de "São todos uns patifes! Calões! Canalhas! Biltres! ", quando caminhava pela rua ou entrava nos cafés e livrarias do Chiado – dirigidos não se sabe a quem!... 

Embora se avente que estes impropérios, que assustavam quem não o conhecia, eram endereçados a quem “dava menos valor à cultura do que a tudo o resto”, eu, na minha fantasia, talvez fruto da recente mudança de regime, imaginava-os dirigidos aos fautores da Nova República que então despontava, ainda sem tantos “calões” e “patifes” como o futuro demonstrou, e ele terá vislumbrado… Esta mudança de regime, ter-lhe-á frustrado encomendas entre os apoiantes do anterior sistema, devido à falta de meios e à sua queda em desgraça. Daí a sua revolta e o seu visceral desagrado, segundo eu presumia…

Por esta altura, era vê-lo desfilar Chiado acima, num passo miudinho e apressado, com os seus sapatos de verniz reluzentes, o cabelo repuxado para trás com brilhantina que lhe emoldurava um semblante grave e pálido, numa elegância “retro” com o seu fato preto ou cinzento escuro, colarinho de goma de uma alvura inexcedível, preferencialmente de gravata branca, lenço branco e um obrigatório grande cravo da mesma cor na lapela.

Foi este seu ar peculiar, por vezes com um bouquet de cravos brancos na mão, que o levou a ser alcunhado de “o sempre noivo”, “o noivo eterno” ou o “pintor da noite”.

A sua figura singular, melancólica como ele próprio se definia, avesso a todo o convívio, quase sempre com um chapéu de feltro na mão e muitas vezes com um quadro ou uma pasta com esquissos debaixo do braço, não deixava ninguém indiferente. Os surtos de agressividade verbal sem destinatário conhecido, assim como o seu isolamento social, aliado à temática sombria da sua obra sobre Lisboa nocturna sempre vazia da presença humana, parecem indiciar uma provável perturbação da personalidade que, ainda que ligeira, se foi agravando com o avançar da idade.

Arnaldo Benavente Ferreira
(1923-2000)
A imaginação popular, devido ao seu estilo formal de se paramentar, romantizou-lhe a existência, atribuindo-lhe um hipotético abandono pela noiva no dia da boda, ou a sua morte inesperada antes do casamento, o que o teria levado a esta hipotética loucura… Numa das raras entrevistas que deu â RTP (25-08-1973, “Um dia com… Arnaldo Ferreira”), desmentiu esta legendária narrativa, acrescentando que este seu modo de se apresentar, apenas tinha a pretensão de “trajar com decência”.

Nasceu numa família de parcos recursos, no típico bairro da Graça, a mais alta colina de Lisboa; um bairro com alma e belíssimos miradouros que terão contribuído para lhe aguçar a sensibilidade. Ao certo, sabemos ter residido na Rua da Verónica à Graça, e dizia-se que, mais tarde, veio habitar perto Elevador da Bica/Calçada do Combro, o que justificaria a sua frequente presença no Chiado, facto este que carece de confirmação como muitas outras lendas que sobre ele efabularam. No Chiado frequentava amiúde a Livraria Bertrand e a Pastelaria Bénard, então dois dos ícones da elite intelectual e da burguesia lisboeta.

Estudou na Escola Artística António Arroio e na Escola Industrial Afonso Domingos, esta última uma referência do ensino técnico profissional que privilegiava o ensino do desenho elementar de arquitectura e de máquinas, tal como o de pintura decorativa, e era conhecida pela “Universidade de Xabregas”, tal a qualidade do seu ensino na primeira metade de Novecentos. Nestes dois estabelecimentos de educação, não concluiu os estudos, pois começou a trabalhar cedo em empregos mal remunerados que lhe cerceavam a ambição de ser pintor.

Trabalhou como desenhador de joalharia, até que, a seu pedido foi orientado pela artista plástica MARIA ADELAIDE LIMA CRUZ (1908-1985) e abraçou definitivamente a sua vocação de artista. Esta sua mentora e vizinha, pela qual Arnaldo Ferreira demonstrava uma dívida de gratidão, residia na Rua da Graça do mesmo bairro, e descendia de uma família ligada às artes plásticas e á música. Foi discípula do notável pintor Carlos Reis (1863-1940), além de bolseira em Paris durante um ano (1934), tendo dispersado a sua criatividade artística como pintora, cenógrafa, figurinista e cartoonista, assim como professora de alguns aspirantes a artista.

ARNALDO FERREIRA, segundo consta, embora gostando da noite como tema da sua singular obra pictórica, raramente deambulava pela vida nocturna da capital, só o fazendo para vender alguns dos seus quadros, pois achava que os boémios lisboetas que nela vagueavam saberiam apreciar a sua obra. Dele se dizia que, recolhido a casa, pintava freneticamente pela noite fora até altas horas, e sobrevivia deste seu labor, ao qual juntava algumas exposições individuais e colectivas.

Marginalizado pelos académicos bem-pensantes, quiça devido á sua falta de sociabilidade e de escola, e ao facto de não fazer parte do grupo de pintores do modernismo português, não lhe era dado o valor que merecia. 

Solitário, mas com muita determinação, com o seu pincel captava com alguma maestria os claros-escuros nocturnos, numa visão onde as sombras pontuadas pela luz que fluía das janelas e dos candeeiros transmitiam a realidade sorumbática que distinguia os bairros típicos de Alfama, Mouraria, Bairro Alto e das diversas zonas ribeirinhas.

ARNALDO FERREIRA pintou mais de mil pequenos quadros, a óleo ou a pastel, que estão espalhados por todo o país e estrangeiro em colecções particulares e públicas, entre elas a Câmara Municipal de Lisboa e o Museu da Cidade.

Morreu a 15-XI-2000 tendo recebido algumas homenagens póstumas, tais como a atribuição do seu nome a uma rua do Lumiar, em Lisboa (15-XII-2003), assim como a um largo na vila ribatejana de Benavente. A Câmara Municipal de Lisboa, atribuiu-lhe ainda a Medalha de Mérito Municipal, Grau Ouro (21-IX-2005), pela dedicação de toda uma vida artística à cidade de Lisboa.

Nós, estudantes de Bela Artes, ao vê-lo passar na Rua Garrett sentíamos uma espécie de admiração secreta por este “outsider” do meio artístico; tanto pela incompreensão a que era votado pela sociedade, como pelo desprezo hostil com que este retribuía. 

O seu grande foco era a realização da sua obra plástica sobre a cidade amada perdidamente. Nada mais lhe interessava e, por isso, parece-nos que, à sua maneira, passou por este mundo oscilando entre a loucura dramática de um Van Gogh e a excentricidade feérica de um Salvador Dali.   

Por tudo isso, e para que não caia no esquecimento, aqui lhe prestamos o nosso tributo e respeito.


João Trigueiros









Eng. VALDEMAR CALDEIRA (1941-2019)

Eng. Valdemar Caldeira (1941-2019)


O seu exemplo foi um safanão que nos torna a todos mais pequenos perante a sua lição de vida.

O engenheiro químico Valdemar Caldeira, antigo e efémero professor da Universidade de Coimbra, cidade onde residiu e onde era admirado com respeito por quem o conhecia, senhor de uma invulgar sabedoria e sensibilidade, era natural do concelho de Montemor-o-Velho. Rejeitando as vaidades deste mundo, dedicou a sua fortuna aos pobres dando quase tudo o que tinha aos mais carenciados, vivendo humildemente como um eremita dos tempos modernos. Marginalizou-se e viveu com condições mínimas de sobrevivência e já com assomos de demência que lhe abreviou a existência.

Filho de uma família abastada com origem na Carapinheira, rejeitou a reforma do Estado e dava explicações gratuitas de Matemática aos alunos.

Solidário, modesto sem falsidade, a ostentação e a vaidade não faziam parte do seu universo cristalino que estava mais próximo da simplicidade do “Poverello de Assis”.

Felizmente que, num universo com muita gente supérflua, ainda encontramos seres assim. A sua grandeza, mesmo tocada pela loucura, serviu de exemplo à salvação de uma humanidade perdida que apenas valoriza as aparências sem conteúdo, a imposturice sem lastro e o efémero…

Pago aqui o meu tributo à nobreza deste ser inigualável que se foi libertando de tudo o que o prendia a este mundo que rejeitava e, tal como o Ícaro da mitologia grega, na sua ânsia de voar, acabou por soçobrar – talvez no Paraíso, pois era um crente fervoroso…

“Tudo o que é grande foge da praça pública e da fama”, como ensinou Frederico Nietzsche.

 João Trigueiros

Testemunho:

 «Há vidas assim...

Prescindiu da fortuna que os pais lhe deixaram para ajudar os outros.
Um sem-abrigo que ensina alunos da Faculdade a custo zero.
Uma celebridade que merecia honras de Estado.

Cansado de lidar com gente que se faz passar por aquilo que não é, depois de ver as igrejas cheias de pecadores e os cemitérios com tanta gente nobre, partilho este exemplo de mais um dos meus heróis anónimos.

Este Senhor que para muitos é um sem-abrigo, é um homem nobre. Professor Universitário aposentado, licenciado em Engenharia com distinção, co-autor de livros de matemática e engenharia, prescinde da sua confortável reforma para ajudar os que precisam mais do que ele. Não tocou na fortuna que herdou dos pais e não usa o carro topo de gama que o pai lhe ofereceu.

Na sua humilde casa ou em locais públicos, ensina os jovens universitários e outros estudantes que o procuram sem nunca cobrar um cêntimo.
Vive com o indispensável para sobreviver e recusa ajudas porque é um "homem rico" e tem a vida que escolheu.

O engenheiro Valdemar Caldeira não vai gostar, não lhe digam nada... O Engenheiro Caldeira não tem Facebook, nem computador, nem telemóvel.
Mas tem tempo, esperança e solidariedade para dar a quem precisa.
Que lição de vida!»

(Créditos: Joaquim Alhinho)