2026-09-25

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876)

 

Mikhail A. Bakunin (1814-1876)


Tenho saudades daquele miúdo que eu era na adolescência quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é um ato de fé na humanidade.

Tal o deslumbramento do miúdo que era, fiquei fascinado pelo romance histórico “O Diabo em Pontelungo” (Il Diavolo al Pontelungo), de Riccardo Bacchelli — original de 1927, que li na edição da Portugália Editora de Lisboa de 1966 — envolvendo Bakunin, assim como Carlo Cafiero e Andrea Costa, anarquistas italianos. Neste drama, passado na pequena propriedade de La Baronata, em Minusio, perto de Locarno (1873-1874), à beira do Lago Maggiore, na Suíça, onde Bakunin se instala graças ao apoio do riquíssimo aristocrata e intelectual italiano Carlo Cafiero (1846-1892), que vendeu as suas propriedades em Barletta, na Apúlia, para lhe comprar a vila.
A ideia não era um falanstério fourierista, mas garantir-lhe estatuto de proprietário para obter a cidadania suíça e ter um depósito de armas e alojamento para a internacional anarquista. Dali partiria, em julho de 1874, para Bolonha, onde fez a sua última tentativa insurrecional “para a libertação do mundo inteiro” em agosto de 1874, a qual fracassou com a prisão de Costa a 5 de agosto, obrigando-o a fugir disfarçado de padre.

Priamukhino, propriedade senhorial
 dos Bakunin

Priamukhino, Casa dos Bakunin.















Espoliado por decreto do Czar Nicolau I em dezembro de 1844 — destituído do título de nobre, dos direitos civis e com os bens confiscados —, Bakunin vinha de uma nobreza provincial, não da grande aristocracia da corte. A velha casa senhorial setecentista, uma grande e austera “usadba” — propriedade nobre —, na aldeia de Priamukhino, distrito de Torjok, em Tver, fora comprada pelo seu avô em 1779, o qual vivia do trabalho de mais de 500 servos que foram libertados por Alexandre II em 1861. Esta propriedade compreendia uma fábrica de tijolos destinada a edificar e manter todos os edifícios, e ainda uma manufatura têxtil que produzia pano grosseiro de linho para as necessidades do exército.

Tinha uma bela capela, celeiros, estufas, moinhos, estábulos de gado, viveiros de peixe no rio Ossuga que a atravessava, cascatas de lagos artificiais, banho turco, Colina do Avô, Colina Kutuzov, Alameda das Crianças, e o famoso Carvalho dos Dezembristas — plantado em 1815 pelos irmãos Muravyov, parentes dos Bakunin, em memória da sua estadia. Árvore que caiu numa tempestade no final dos anos 70 e foi replantada pelos descendentes em 1989. Os Muravyov daquela plantação não foram os enforcados de 1825; os cinco executados pelo Czar em 1826, por quererem pôr fim à autocracia e à servidão, eram de outro ramo, como Sergei Muravyov-Apostol.

O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.

Priamukhino, capela.

Homem viajado e conhecedor do mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande paixão.

Fez parte do “Círculo de Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831 na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à autocracia imperial.

Jamais poderei esquecer este personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que, já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está próximo do fim.

Berna, Cemitério de Bremgarten,
sepultura de 
Mikhail Bakunin.
Finou-se a 1 de julho de 1876, com 62 anos de idade, em Berna (Suíça), num hospital onde fora procurar tratamento, e repousa no Cemitério de Bremgarten (Bremgartenfriedhof). Rigorosamente, um século depois da sua morte, juntamente com um grande amigo de aventuras, então simpatizante libertário, o Gustavo Filipe Saraiva, jurista, fui em busca da sua sepultura para lhe prestar a minha homenagem.

Depois cresci, e então vi que o futuro não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio, porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser extremista...

O libertário que fui acreditava que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais esperto, do mais sem vergonha...

Talvez, por isso, hoje o meu antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.

O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.

Deixei de ter ilusões sobre a bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.

É uma inocência perdida, sim, mas é também uma lucidez ganha.


jt

2026-09-24

OBRIGADO !

 



OBRIGADO.

Se não fossem Vocês, o que seria de nós?

É uma pergunta que nos assombra. Felizmente nunca teremos de responder, porque Vocês estão sempre aí. Firmes. Presentes. Imprescindíveis.

Obrigado por nos protegerem de nós próprios. Nós, ingénuos, achávamos que o país precisava de saúde, de escola, de casas e de salários que dessem para viver. Vocês, com a vossa visão superior, explicaram-nos que o país precisa é de mais comissões, mais observatórios, mais planos estratégicos…

Obrigado pelo vosso sacrifício. Ganhar mal, trabalhar muito, viver com angústia de não saber se vamos chegar ao fim do mês….

Obrigado por nos ensinarem economia. A nos pedirem para apertarmos o cinto enquanto Vocês alargam o vosso. É pedagogia no seu estado mais puro.

Obrigado pela vossa humildade. Por nunca terem culpa de nada. A culpa é sempre do governo anterior, da conjuntura internacional, do povo que não entende, do tempo que não ajudou. É bonito ver tanta gente inocente junta num só sítio.

Obrigado por nos salvarem todos os dias. Se não fossem Vocês, quem nos ia prometer tudo de novo a cada quatro anos? Quem nos ia dizer que agora é que vai ser?

 

Se não fossem Vocês, o que seria de nós?

Provavelmente um país chato, normal e a funcionar. Deus nos livre de tal desgraça.

Continuem. Por nós.


2026-09-03

LUÍS NEVES, ministro das trapalhadas e incompetência...

 Puro humor...


Lavrentiy Beria (1899-1953), esse artesão da sombra, foi o maestro mais longevo da polícia secreta soviética — um funcionário tão dedicado que transformou o terror num expediente administrativo. Subiu pelo Partido como quem escala uma pilha de cadáveres, até se instalar ao lado de Stalin, onde coordenou expurgos, Gulags e toda a engenharia da crueldade que o regime exigia. Ambição febril, astúcia oleosa, uma sede de poder que nem os próprios fantasmas conseguiam saciar — Beria era isso tudo, e ainda mais.

Depois, quando o protetor morreu, o destino fez-lhe a cortesia de um julgamento rápido e uma execução ainda mais rápida. Décadas depois (nos anos 90), encontraram cadáveres enterrados junto à sua casa de Moscovo — lembranças discretas de serviços prestados.

E agora, o nosso Beria figurado… esse não precisa de pistolas nem de caves de tortura. Basta-lhe o silêncio dos outros.

Quantos “expurgos” conhece, quantas vidas tem penduradas nos cordéis da sua influência, quantas bocas aprendeu a fechar sem levantar a voz. Não mata ninguém — não precisa.

Há quem se cale por antecipação, por prudência, por medo, ou simplesmente porque já percebeu que, perante ele, falar é uma forma lenta de suicídio social.

Quantos segredos conhecerá? Quantas pessoas terá nas mãos? Quantas bocas terão aprendido, por prudência, a permanecer fechadas?

Hoje já não é preciso uma polícia secreta. Bastam poder, influência, alguns dossiers e uma boa capacidade para lembrar aos outros aquilo que eles preferiam esquecer.

Naturalmente, isto é apenas uma comparação.

Qualquer semelhança com a realidade será, evidentemente, mera coincidência — dessas coincidências que, por medo e cobardia, fazem muita gente ficar subitamente muito calada.

Estejam descansados, o nosso Beria Luso, não enterra cadáveres no quintal. Enterra consciências. E fá-lo com a mesma eficiência burocrática do original.

Ele, ofegante, esbraceja e esforça‑se por calar tudo à sua volta, como um zelador do silêncio alheio. Mas há sempre aquele “único homem de coragem” que lhe escapa — determinado, persistente e absolutamente convicto de que a sua voz não é para arquivar. O tirano metafórico tenta, insiste, aperta… e ele continua a falar, com a serenidade de quem sabe que não se dobra e é a única nota dissonante que o maestro do silêncio não consegue abafar – de seu nome ANDRÉ VENTURA.

 

2026-07-10

CHEMEKOLÂNDIA: o Reino do Mundo às Avessas

- Sátira -

Há países que procuram aprender com os seus erros. Depois há a CHEMEKOLÂNDIA, um país inteiramente imaginário onde os erros são elevados à categoria de política de Estado e o absurdo é tratado como património nacional. 

Na CHEMEKOLÂNDIA, tudo funciona ao contrário do bom senso. O mérito é visto com desconfiança, a competência é considerada um defeito e a honestidade desperta imediatamente suspeitas. Quem trabalha demasiado é acusado de querer estragar o equilíbrio social; quem nada faz é frequentemente recompensado pelo seu extraordinário talento para aparentar actividade. 

Os seus habitantes, os lendários CHEMEKOS, vivem numa realidade paralela onde as aparências valem infinitamente mais do que os factos. São mestres na arte de transformar propaganda em verdade, promessas em feitos históricos e fracassos monumentais em vitórias inesquecíveis. A imaginação é tão fértil que conseguem celebrar inaugurações de obras ainda por começar e festejar sucessos que só existem nos discursos oficiais. 

Na saúde, a lógica CHEMEKA é simples: quanto pior o serviço, mais satisfeitos devem estar os cidadãos por ainda conseguirem sobreviver. As listas de espera tornam-se uma forma de meditação colectiva, enquanto a falta de recursos é apresentada como uma inovadora política de austeridade terapêutica. Se um hospital funciona, é considerado um acidente administrativo que deve ser rapidamente corrigido. 

Na educação, ensina-se sobretudo a decorar slogans e a evitar perguntas incómodas. O pensamento crítico é tratado como comportamento anti-social e a ignorância cuidadosamente cultivada, porque uma população bem informada poderia tornar-se perigosamente difícil de manipular. Os diplomas multiplicam-se com facilidade, mas o conhecimento continua a ser um artigo raro. 

A segurança pública segue princípios igualmente originais. O criminoso é tratado com delicadeza burocrática, enquanto o cidadão honesto passa boa parte do tempo a justificar porque deseja viver em tranquilidade. As leis parecem escritas para confundir quem as cumpre e facilitar a vida a quem as contorna. 

A administração pública é um verdadeiro espectáculo de ilusionismo. Um documento simples percorre tantos gabinetes que acaba por adquirir valor arqueológico antes de receber o primeiro carimbo. As filas são consideradas um elemento essencial da identidade nacional, e a lentidão administrativa é defendida como tradição cultural. 

Na economia, produzir riqueza é secundário; o importante é distribuir favores. O empreendedor é observado com desconfiança, mas o especialista em influências sociais sobe rapidamente na carreira. O orçamento público funciona como um poço sem fundo onde desaparecem recursos com uma eficiência que nunca se verifica nos serviços prestados. 

A corrupção, naturalmente fictícia nesta sátira, é encarada pelos CHEMEKOS como uma forma particularmente criativa de empreendedorismo. Os pequenos favores chamam-se amizades, os grandes esquemas recebem nomes técnicos e os conflitos de interesses são descritos como simples coincidências familiares. Quando alguém é apanhado, proclama-se imediatamente vítima de uma perseguição ou de um gigantesco mal-entendido. 

O roubo é frequentemente disfarçado de gestão, a fraude de inovação e o oportunismo de visão estratégica. O impostor é admirado pela confiança com que fala sobre assuntos que desconhece completamente, enquanto quem demonstra verdadeira competência corre o risco de ser considerado um elemento desestabilizador. 

Mas talvez a característica mais marcante dos CHEMEKOS seja o gosto pela permanente vida de faz de conta. Fazem de conta que governam, fazem de conta que fiscalizam, fazem de conta que reformam, fazem de conta que trabalham e, sobretudo, fazem de conta que tudo corre às mil maravilhas. As estatísticas são cuidadosamente penteadas, os discursos abundantemente enfeitados e a realidade mantida a uma distância confortável. 

No fim de cada dia, todos regressam satisfeitos às suas casas imaginárias, convencidos de viver no melhor dos mundos possíveis, enquanto os problemas continuam exactamente onde estavam. 

Afinal, na CHEMEKOLÂNDIA, resolver dificuldades seria um hábito perigoso: poderia destruir toda a tradição nacional de fingir que elas não existem. 

Felizmente, a CHEMEKOLÂNDIA existe apenas na imaginação. Porque, se um lugar assim fosse real, seria difícil distinguir onde terminava a sátira e começava a realidade...

♥

Nota:

Este texto é uma homenagem póstuma ao meu velho amigo Gustavo Saraiva (m. 9-IV-2010), companheiro de aventuras com quem, há muitas décadas, atravessei a Europa rumo a um dos gloriosos paraísos da então "Cortina de Ferro", onde a igualdade era tão perfeita que até as prateleiras dos supermercados tinham o privilégio de permanecer igualmente vazias.

Sempre que alguém nos perguntava de onde vínhamos, o Gustavo percebia de imediato que responder "Portugal" abriria inevitavelmente a porta a um interrogatório diplomático. Com um ar de absoluta seriedade e um brilho malandro nos olhos, respondia:

— Somos Chemekos, da ChemeKolândia... algures em África.

A resposta era tão absurda quanto convincente. E o mais divertido era ver os interlocutores aceitarem a informação com a solenidade de quem acabara de aumentar o seu conhecimento geográfico. Ninguém ousava confessar que nunca tinha ouvido falar daquele extraordinário país. Pelo contrário, acenavam respeitosamente, como se a ChemeKolândia fosse um membro fundador das Nações Unidas.

O Gustavo divertia-se perdidamente com aquela pequena fraude geopolítica, uma obra-prima de humor seco que hoje dificilmente sobreviveria à era da Wikipédia e dos telemóveis. Bastavam cinco segundos para desmontar a fantasia; naquela época, bastava um sorriso para a tornar absolutamente credível.

Gustavo, Praga,

Foi assim que nasceu a lendária ChemeKolândia e o seu povo, os Chemekos: um país imaginário inventado por um homem com inteligência rara, humor afiado e um talento invulgar para ridicularizar, com uma única frase, a pompa, a ignorância e as certezas de quem nunca admitia dizer simplesmente: "Não faço ideia onde isso fica."

Hoje, ao recordar esta história, percebo que a ChemeKolândia nunca existiu nos mapas. Existiu apenas onde nascem as melhores amizades: no território ilimitado da memória, do riso e da saudade.

Até sempre, Gustavo. Onde quer que estejas, espero que já tenhas convencido alguém de que o Paraíso fica mesmo ao lado da ChemeKolândia.


                                             jt


2026-07-08

A PRAIA DA ROCHA EM COLAPSO

 

Portimão, Av. Tomás Cabreira (marginal)

A nova moradia de volumetria gigantesca no prolongamento da Avenida Tomás Cabreira, na Praia da Rocha, não é apenas um erro urbanístico: é uma afronta deliberada ao território, um murro de betão que se impõe à paisagem e aos cidadãos como se a cidade fosse um mero adereço descartável. O edifício, plantado sobre a frágil falésia de arenito, ergue‑se como um intruso monumental que bloqueia o mar, apaga o horizonte e transforma o espaço público num corredor de sombra. Onde antes havia luz, agora há a silhueta grotesca de um ego com licença de construção.

Implantação na falésia de arenito

O heliponto — esse delírio de ostentação — é a cereja tóxica no topo do bolo. Instalado a poucos metros das casas vizinhas, promete ruído, vento, poeira e a arrogância de quem acha que a cidade existe para servir os seus caprichos. É um símbolo perfeito de uma arquitectura que não dialoga: atropela. Não integra: impõe. Não respeita: domina. A Praia da Rocha, já marcada por décadas de excessos, ganha assim mais um monumento ao desprezo pela escala humana.

A implantação na falésia de arenito é outro capítulo desta tragédia anunciada. A erosão — acelerada pela chuva, infiltrações e décadas de negligência — já ameaça várias edificações que nunca deveriam ter sido autorizadas. A vegetação plantada à pressa e as esteiras de caniços justapostos são apenas maquilhagem barata para disfarçar riscos estruturais que todos preferem ignorar. A falésia, instável e saturada, tornou‑se um tabuleiro onde se empilham quiosques, restaurantes e agora um mastodonte residencial, todos à espera de um pequeno tremor de terra para lembrar que a natureza não negocia com licenças camarárias. 

Este caso não surge num vazio. É o produto de um município onde o absurdo se tornou rotina. O episódio do autarca que engoliu uma folha A4 com alegados indícios de crime perante agentes da Polícia Judiciária não é apenas uma anedota: é um retrato. Um retrato de uma cultura política que prefere destruir provas a enfrentar responsabilidades, que confunde poder com impunidade e que há demasiado tempo perdeu o contacto com a realidade. 

Durante 24 anos de gestão social‑democrata e 26 anos de governação socialista, Portimão acumulou investigações, buscas, detenções, pulseiras electrónicas, cauções e suspeitas de corrupção que pingam como torneira velha. Irregularidades em contratação pública, prejuízos superiores a 4,6 milhões de euros para o Estado, processos que se arrastam, acusações que se acumulam como pó nos arquivos. A própria sede nacional do partido foi recentemente alvo de buscas, lembrando ao país que a impunidade tem prazo de validade — mesmo quando alguns acreditam que não.

A construção desta moradia descomunal é, por isso, mais do que um erro de escala: é o símbolo de um ciclo político esgotado. Um ciclo onde a paisagem foi sacrificada em nome de interesses privados, onde o território foi tratado como mercadoria e onde o horizonte — esse património colectivo — foi amputado sem hesitação. A Praia da Rocha, outrora referência paisagística, tornou‑se laboratório de desvarios urbanísticos que, além de serem cada vez mais, comprometeram a segurança da falésia, descaracterizaram a marginal e transformaram o espaço público num cenário de sobrevivência estética.
Munícipes que continuam a votar nesta gente não escolhem um futuro: escolhem um sedativo. Uma dose forte o suficiente para não sentirem a decadência que lhes cai em cima todos os dias.

Consta — ainda sem confirmação oficial, mas repetido em surdina por quem acompanha a vida autárquica — que o único voto contra este mamarracho partiu do único vereador eleito de um partido recém‑nascido, com pouco mais de seis anos de existência. Se assim for, o episódio é quase simbólico: num mar de conformismo, foi preciso um estreante para levantar a sua mão limpa e dizer “basta”. Parabéns, porque a coragem política e a honestidade andam escassas, sobretudo quando o assunto envolve betão, vistas roubadas e interesses que se movem com a delicadeza de um rolo compressor.

Praia da Rocha, "abarracamentos comerciais" entre
a marginal Rua Tomás Cabreira e a praia.

Portimão não precisa de mais mastodontes, nem de mais helipontos, nem de mais episódios dignos de teatro do absurdo. 

Basta da contínua barreira comercial ao longo da Avenida Tomás Cabreira, formando um muro de abarracamentos que bloqueia a vista da praia e estrangula a relação entre marginal e mar.

É preciso autarcas com o mínimo de qualificações e de sensibilidade. Que estes não têm minimamente, para entenderem que num urbanismo de praia, DESENVOLVIMENTO é o gesto bruto de quem ergue paredes onde antes havia horizonte. PROGRESSO é o cuidado raro de quem sabe que a paisagem não é decoração: é respiração colectiva.

DESENVOLVIMENTO empilha blocos que amputam o mar, privatizam a luz e transformam a falésia num adereço para folhetos imobiliários. PROGRESSO, esse, tenta salvar o que resta da delicadeza do lugar — o vento que chega limpo, a linha azul que não devia ser negociável, o simples acto de ver o mar sem pedir licença.

Os portimonenses, por sua culpa, têm a infelicidade de elegerem autarcas que tratam a cidade e a praia como activos financeiros, como se o horizonte fosse um bem transaccionável e a paisagem um luxo que se pode vender ao metro quadrado... 

A Praia da Rocha precisa de uma limpeza profunda — urbanística, ética e política — capaz de devolver à cidade o horizonte que lhe roubaram. Se necessário, levando à Justiça quem eventualmente, com ilegalidades, vai enchendo os bolsos...

jt

♦


Plano de Urbanização, Século XX (meados)



Praia da Rocha, Avenida Marginal
(actual Rua Tomás Cabreira)
Praia da Rocha, Avenida Marginal
(actual Rua Tomás Cabreira)














Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista
Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista















Praia da Rocha, Vivenda Compostela
(selvaticamente destruída)













2026-06-29

Declarações de um tal CARLÃO no Rock in Rio Grande ̶ Lisboa (2026)

 

Carlão


Ó CARLÃO, meu estratega de café! 

Agradecemos a tua inquietação com a “ascensão da extrema‑direita e do fascismo”. É comovente, quase enternecedor. Só há um pequeno detalhe: essa tal “extrema‑direita” que te atormenta nem sequer conseguiu pôr um pé na Assembleia da República, quanto mais no governo.

O nosso verdadeiro problema não é a ameaça imaginária que tu vês ao longe — é o facto de tu não saberes distinguir uma ditadura corporativa de um fascismo à Mussolini ou à Hitler. Para ti, tudo o que não cabe na tua playlist ideológica é fascismo.

E já agora, Carlão, enquanto te ocupas a cantar loas ao perigo inexistente, os teus amigos — e amigas do peito — continuam alegremente a capturar os recursos públicos para subsidiar as vossas cantorias e parvoíces, essas obras‑primas produzidas pelos vossos neurónios em modo de poupança energética.

No fundo, o fascismo que mais nos preocupa é o teu: o fascismo intelectual, aquele que transforma ignorância em convicção e convicção em espectáculo.

Pois, cada vez que abres a boca para anunciar a “ascensão da extrema‑direita”, parece que estás a lançar um novo single: muito drama, pouca substância e zero fact‑checking. A extrema‑direita, segundo tu, já anda a rondar as portas da democracia como se fosse um DJ atrasado para o set — pena é que, na realidade, ainda nem conseguiu entrar na discoteca.

Depois vens com o teu clássico: “Agora os racistas assumem‑se.” Pois claro, Carlão, obrigado pela revelação sociológica que ninguém pediu. É sempre reconfortante ouvir análises profundas de quem acha que o país está à beira do abismo porque meia dúzia de comentários no Twitter ficaram mais barulhentos.

E quando decides falar de política internacional, então é que a festa pega fogo: Trump vira “pato donald”, Elon Musk vira “palhaço do X”, e tu transformas a geopolítica numa espécie de stand‑up mal ensaiado.

No fundo, Carlão, tu és o único artista capaz de transformar preocupações vagas em profecias apocalípticas, e opiniões de café em alertas democráticos. A tua análise política tem a profundidade de uma story de 15 segundos — mas com a vantagem de ser subsidiada.

Continua, Carlão. Cada vez que falas, a democracia treme… mas só de rir.


2026-06-08

CANDIDATOS À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA — 2026:

 SEGURO vs. VENTURA

 


SEGURO não fala; procede à leitura solene de documentos. A sua ideia de eloquência parece consistir em demonstrar que domina, sem sobressaltos, a difícil arte de seguir uma linha de texto até ao fim. Quando sobe à tribuna, a expectativa da assistência não recai sobre o pensamento que possa emergir, mas sobre a espessura do maço de folhas que o acompanha. O papel não é um apoio: é o verdadeiro protagonista da sessão.

A sua dependência do texto é de tal ordem que, se uma corrente de ar lhe desorganizasse os apontamentos, assistir-se-ia provavelmente a um dos mais embaraçosos naufrágios intelectuais da vida pública portuguesa. Ficar-lhe-ia o olhar vago de quem acaba de perder não apenas as notas, mas também a própria localização das ideias.

Cada frase surge com a espontaneidade de uma circular administrativa. Cada parágrafo avança com a vivacidade de um regulamento camarário. Tudo é cauteloso, medido, filtrado, desinfectado e esterilizado até ao ponto em que já não resta uma única centelha de vida. Escutá-lo é uma experiência comparável à leitura integral de um manual de instruções, com a agravante de o manual, por vezes, conter informação útil.

Para SEGURO, as páginas preparadas pelos assessores assumem uma dignidade quase sagrada. Não as consulta: venera-as. Segue-as com a reverência de um monge copista medieval diante de um manuscrito iluminado. Cada folha parece descer directamente do Monte Sinai; cada vírgula adquire a solenidade de um mandamento. O pensamento próprio, quando existe, permanece prudentemente escondido entre duas notas de rodapé.

É comovente observar a sua coragem, desde que confinada aos limites rigorosamente assinalados pelo texto. Fora deles, o território torna-se perigoso. Há sempre o risco de surgir uma pergunta inesperada, uma ideia não previamente aprovada ou, pior ainda, a necessidade de improvisar.

Enquanto isso, a assistência entrega-se gradualmente a um estado de letargia civilizada. Não o sono comum e grosseiro, mas aquele torpor elegante dos espíritos bem-educados que, por cortesia, fingem continuar atentos enquanto a alma procura discretamente uma saída de emergência.

E é precisamente aqui que reside o espanto. Houve quem olhasse para este funcionário da leitura pública e o colocasse em competição directa com um orador capaz de improvisar, persuadir e dominar uma sala. Houve quem observasse ambos e concluísse que a burocracia merecia triunfar sobre o talento. É uma decisão que continuará a intrigar os historiadores, caso algum deles consiga permanecer acordado durante tempo suficiente para estudar o assunto.

De um lado, um homem que necessita do papel como o alpinista necessita da corda. Do outro, alguém que sobe sem rede. De um lado, a recitação. Do outro, a comunicação. De um lado, a segurança do texto previamente escrito. Do outro, o risco — e também a glória — do pensamento em movimento.


VENTURA não se limita a discursar: ocupa o espaço, desafia, provoca e prende a atenção. Fala como quem conduz uma conversa com centenas de pessoas ao mesmo tempo. Improvisa porque conhece a matéria. Adapta-se porque domina o contexto. Convence porque transmite a impressão de que as ideias lhe pertencem.

SEGURO, pelo contrário, oferece frequentemente a sensação de ser apenas o estafeta encarregado de entregar uma mensagem redigida por terceiros.

Onde um comunica, o outro lê.

Onde um persuade, o outro consulta.

Onde um procura conquistar o público, o outro procura não perder a página.

Quando SEGURO conclui uma intervenção, o auditório recorda vagamente que ocorreu um discurso. Quando VENTURA termina, concorde-se ou não com ele, as pessoas sabem exactamente o que ouviram. E esta é uma diferença devastadora. A oratória não consiste em pronunciar palavras na ordem correcta; consiste em fazer com que sobrevivam na memória depois de terminadas.

Ao observá-los lado a lado, torna-se difícil evitar a conclusão de que a natureza distribui os seus favores de forma profundamente desigual. A alguns concede presença, rapidez de raciocínio, improvisação e magnetismo. A outros concede apenas disciplina de leitura.

SEGURO pertence, com uma consistência quase heróica, à segunda categoria. O seu maior triunfo oratório não reside em inspirar, convencer ou entusiasmar. Reside em alcançar a última página sem perder o fio da leitura. E há admiradores tão generosos que confundem esse feito administrativo com génio político.

Talvez seja essa a sua maior injustiça: ter sido avaliado como águia quando nasceu para guarda-livros. E não há nada de errado em ser guarda-livros. O problema começa quando alguém insiste em apresentar o inventário como se fosse voo.

                            jt

2026-05-29

URBANISMO FUNDANENSE, entre a ganância e o mau gosto.

[Av. Monsenhor Santos Carreto]

Análise da Aprovação Camarária de um Edifício: Compensação por Ausência de Espaços Verdes e Ausência de Protecção da Privacidade.

Uma gaiola mastodonte quanto à volumetria: a prova viva de que a urbanização camarária já não aprova projectos, apenas autoriza desastres.

A especulação imobiliária tem este dom peculiar: empurrar para a cidade volumes desmedidos que esmagam a rua e ignoram por completo o ritmo do local. O resultado são fachadas que não conversam com as vizinhas, como se cada prédio estivesse numa competição silenciosa para ver quem se impõe mais. Não é arquitectura o problema — é o urbanismo rendido à rentabilidade, onde a coerência urbana é sempre a primeira a ser sacrificada.

Mastodonte
Espaço verde de separação.











A grande volumetria deste mastodonte não se limita a “ocupar” o lote — engole-o. O edifício impõe‑se como um bloco maciço, sem qualquer gradação, sem transições, sem respeito pela escala do entorno. É um volume que não dialoga: projecta sombra, peso e domínio, como um corpo estranho que aterrou ali por acidente administrativo.

A ausência de espaço verde só amplifica o efeito: quando não há árvores, nem recuos, nem respiros, a volumetria deixa de ser apenas grande — torna‑se opressiva. O resultado é um objecto urbano que funciona mais como barreira do que como edifício, um monólito que se afirma pela massa e não pela integração — um pedaço de cidade que decidiu abdicar de ser cidade para ser apenas construção.

Embora certas decisões camarárias se enquadrem formalmente na legalidade, não deixam de desafiar o bom senso urbanístico, sobretudo quando ignoram princípios essenciais como a previsão de espaços verdes, a protecção da privacidade e a salvaguarda da servidão de vistas — precisamente criada para evitar situações de devassa entre edifícios.

“Gostos não se discutem”, diz‑se por comodidade mental. Mas a sensibilidade educa‑se — e quando não se consegue educar, o urbanismo afunda‑se numa entropia tão vistosa quanto a ignorância que a produz.

O edifício recentemente aprovado na Av. Monsenhor Santos Carreto é um exemplo claro de como uma implantação desmedida, aparentemente por ganância, pode comprometer a coerência morfológica do espaço e a privacidade da vizinhança, mesmo quando a qualidade do projecto arquitectónico não está em causa. 

O licenciamento de um projecto arquitectónico que esgota a ocupação de um extenso lote até ao limite absoluto permitido, criando fachadas densamente rasgadas para os vãos existentes no prédio vizinho, configura uma opção urbanística pobre, de gosto duvidoso e de racionalidade discutível. Mesmo que técnica e legalmente admissível, trata‑se de uma solução que suscita perplexidade e levanta dúvidas quanto à prudência do procedimento sob interesses de natureza questionável.

Não se fala aqui de ilegalidade, mas de interpretações normativas excessivamente flexíveis e de decisões que, se não configuram um benefício indevido, pelo menos parecem conceder um tratamento preferencial pouco transparente.

Em suma: não desafiam a lei, mas desafiam a lógica, a prudência e a boa prática urbanística, e como diz o povo, “à mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta.”

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Acta n.º 10, 24/05/2025

O caso em análise, sito em São Pedro, “Quinta da Boavista”, Fundão, foi aprovado por deliberação camarária constante da Acta n.º 10/2025 de 24/06/2025, a qual determina “não justificar a localização de áreas para espaços verdes de utilização coletiva, sujeitando a operação à compensação prevista no artigo 49.º do RMUE”.

A fachada principal do edifício em questão, ocupa integralmente a frente de um vasto lote que, ao contrário dos edifícios deste lado do arruamento, não salvaguarda a existência de um espaço verde entre o edifício adjacente.

As suas quatro fachadas repletas de vãos, embora respeitem o afastamento mínimo legal, face à edificação contígua, tolhe a protecção da sua intimidade; apesar deste lote permitir um afastamento maior com a interposição de um desejável espaço verde para reduzir o impacto visual...

Tudo isto porque, aparentemente, o apetite predatório levou à maximização desnecessária da área edificável, mediante o pagamento à autarquia de uma compensação legal pela dispensa de espaços verdes — a qual reforça as receitas municipais. Da parte do promotor, por ganância; da parte da autarquia, talvez para sustentar o seu despesismo crescente que sustenta uma espécie de agência de empregos… que nós pagamos, através de uma taxa de IMI que é a segunda mais elevada dos concelhos da Beira Interior (0,38%).












O artigo 49.º do RMUE, articulado com o RJUE e o RJIGT, estabelece que, quando não se justifique a localização de áreas verdes de utilização colectiva – relevantes para o interesse público e a qualidade do ambiente urbano – o promotor fica sujeito ao pagamento de uma compensação ao município, em numerário ou espécie. Resta saber, quem decide da sua relevância e qual a justificação, que não está expressa na acta tornada publica...


- Mastodonte


O deferimento do projecto pode ser condicionado ao cumprimento de requisitos técnicos adicionais, que normalmente tratam de segurança, acessibilidade ou protecção de edifícios vizinhos, o que aqui não terá acontrcido.

Há jurisprudência sobre este assunto, a qual reconhece que, mesmo cumprindo os requisitos mínimos legais, pode haver violação de direitos de personalidade (artigos 70.º e seguintes do Código Civil) se a utilização do prédio vizinho for substancialmente prejudicada por ruído, emissões, cheiros ou devassa visual.

Varanda projectada sobre a
faixa de rodagem.
Varanda projectada sobre a
faixa de rodagem

Alterar o contexto urbano não é, por si só, ilegal; mas pode desafiar o bom senso urbanístico, sobretudo quando afecta a privacidade, a coerência da paisagem ou a relação volumétrica entre edifícios.

Mesmo com afastamentos legais, mesmo com licença camarária, mesmo sem servidão de vistas, não é admissível devassar a vida privada do vizinho com fachadas inteiras de vãos que exponham rotinas diárias. A legalidade urbanística não é escudo contra responsabilidade civil.

Segundo a Lei, a paisagem perdida pode ser juridicamente irrelevante; a intrusão directa não é...

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Já há jurisprudência conhecida dos Tribunais da Relação, para obstar a estes abusos, obrigando à eliminação de aberturas para impedir a devassa da privacidade.

O Código Civil (art. 1346.º) é cristalino: o proprietário deve abster‑se de actos que causem prejuízo ao vizinho para além do tolerável, nomeadamente devassando a sua privacidade.

Mesmo que a obra cumpra afastamentos, mesmo que tenha licença da Câmara, mesmo que não exista servidão de vistas; não pode devassar a vida privada do vizinho com fachadas inteiras com vãos que exponham rotinas diárias. Em resumo, qualquer licença legalmente emitida, não legitima a violação da privacidade.

Neste caso, a paisagem perdida é juridicamente irrelevante – o que importa é a intrusão directa... podendo esta, mesmo com licença camarária, levar à indeminização por danos não patrimoniais quando os tribunais consideram que uma obra viola intoleravelmente a vida privada do prédio vizinho...

A legalidade urbanística não é escudo contra a responsabilidade civil por devassa, pois esta não depende da distância — depende da intrusão.

A obrigação de evitar a devassa é de quem a causa, não de quem a sofre...

A jurisprudência e a doutrina das Relações e do Supremo Tribunal de Justiça é clara, pois reconhecem que o cumprimento estrito dos requisitos mínimos não basta para salvaguardar os direitos de personalidade e a dignidade dos ocupantes dos edifícios vizinhos. A devassa visual, a exposição excessiva e a perda de qualidade de vida podem legitimar a impugnação das aprovações.

A possibilidade objectiva de observação directa do interior do prédio vizinho configura ingerência intolerável na esfera privada, impondo a eliminação, opacificação ou modificação das aberturas que a originam.

Os moradores não têm de viver como figurantes num palco montado pelo prédio novo.

Não têm de fechar cortinas de dia.

Não têm de andar às escondidas dentro da própria casa.

Não têm de abdicar da sua vida privada porque alguém decidiu rasgar fachadas inteiras voltadas para dentro de um edifício contíguo.

A revolta, aqui, é legítima — e necessária.

 Conclusão

Correr da rua harmoniosa, que este mastodonte arrasa
 com a lucidez de quem nunca percebeu a rua que ocupou
.
A defesa da legalidade, da transparência e da justiça urbanística é um dever de todos os intervenientes no processo de edificação e um pilar do Estado de Direito democrático.

Para a tomada de decisões urbanistas assisadas, a substituição de neurónios por algoritmos, embora nos pareça assustador, é cada vez mais necessária – pois a inteligência artificial, além de não ser incompetente, também não tem bolsos...

O Fundão merece melhor. Os seus munícipes também...

 JT

 

Obs: Grafia Pré-Acordo Ortográfico de 1990