Brasil: A MAIOR DEMOCRACIA DA AMÉRICA DO SUL
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| José Alberto de Carvalho |
Muro de Lamentações, Combates e Provocações ...
Brasil: A MAIOR DEMOCRACIA DA AMÉRICA DO SUL
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| José Alberto de Carvalho |
Acampada
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| Lisboa, Praça D. João IV |
Graças a uma clarividente juíza, absolutamente isenta de qualquer tentação trotskista, aguardo com legítima expectativa a próxima manifestação lisboeta em defesa do aumento do leite aos produtores.
Espero ver o Rossio transformado
num enorme pasto revolucionário, povoado por vacas leiteiras simbolicamente
conscientes da sua condição histórica, ruminando manifestos enquanto desafiam a
tirania dos intermediários.
Estou certo de que não faltarão
palavras de ordem vigorosas contra a exploração da vaca trabalhadora e
intervenções inflamadas exigindo a socialização dos prados.
Afinal, quando a realidade
ultrapassa a sátira, resta apenas observar o espetáculo. Tudo isto graças a uma
Renata Cambra — Cambra, mesmo, não é gralha de “capra”, o universo tem sentido
de humor — que descobriu a fórmula mágica para a habitação em Portugal: é só
montar uma tenda no Rossio, pelo tempo que se quiser, e esperar que a juíza Ana
de Campos a transforme em património imaterial da democracia.
Brilhante, não é? Enquanto
milhares de pessoas andam a fazer contas à vida para pagar uma T1 a preço de
palacete, aparece a iluminada que percebeu que a falta de casas é, afinal, um
excelente palco. Uma tenda, uma intimação, uma câmara a chorar por causa do
Mercado de Natal, e pronto — de repente temos uma causa, uma sentença, e um
comunicado pronto para o futuro panfleto eleitoral e aplaudir a criatividade
involuntária do argumento.
Face a semelhante espetáculo,
resta perguntar: espera este país ser levado a sério?
JT
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| António de Oliveira Salazar (1889-1970) |
Chamar fascista a António
Oliveira Salazar (1889-1970) é esquecer que os fascistas portugueses
mais autênticos, liderados por Francisco Rolão Preto (1893-1977),
acabaram perseguidos pelo próprio regime.
Enquanto Benito Mussolini
(1933-1945) sonhava com impérios, camisas-negras e multidões em marcha,
Salazar sonhava com orçamentos equilibrados, aldeias tranquilas e cidadãos que
não levantassem problemas.
O fascismo português teve
dono, e não era Salazar. Quando os nacional-sindicalistas de Rolão Preto
tentaram importar para Portugal a energia e a estética do fascismo europeu,
descobriram rapidamente que o Estado Novo não apreciava concorrência
ideológica. O resultado foi a repressão do movimento e o exílio de Rolão Preto
na Espanha, onde colaborou e acompanhou o movimento fascista de José António
Primo de Rivera (1903-1936).
Em certo sentido, aplicou-se a
velha regra: ao fascismo português, Salazar deu o tratamento que qualquer
ditadura reserva aos rivais, mesmo quando estes se dizem seus parentes. Ou, em
linguagem popular: cada um recebeu o que era seu, o fascismo ficou com Rolão
Preto, a ditadura conservadora ficou com Salazar.
Importa notar que esta é uma
interpretação entre várias.
Toda esta gente perturbada transformou
a sua recusa da medicina numa filosofia de vida: não procura tratamento, não
toma medicamentos e exibe a própria teimosia como medalha de mérito. Depois
surpreendem-se ao descobrir que são relegados para o lixo da história. Deste
modo, os seus padecimentos não têm cura, visto não procurarem informação descomprometida,
à margem dos enviesados manifestos ideológicos…
♦
Quanto à natureza do regime
A ITÁLIA
FASCISTA (1922-1943): Era revolucionária, queria romper com o passado liberal e
criar uma nova civilização romana, moderna, industrial e imperial. Defendia a
ideia de renascimento nacional depois da decadência.
O fascismo italiano foi uma
ditadura da mobilização, da encenação e da exibição da modernidade.
ESTADO NOVO
PORTUGUÊS (1933-1974): Era conservador e contrarrevolucionário. Salazar vinha
do catolicismo social e do integralismo. Não queria criar um homem novo
futurista, queria conservar o homem antigo: rural, católico, obediente,
resignado. Ele próprio dizia em 1934: "O nosso Estado não é fascista, pela
sua essência, pelos seus fins, pelos seus meios". A sua base era a ordem,
não a revolução.
O Estado Novo
foi uma ditadura da contenção, da prudência e da conservação, combinando
elementos do conservadorismo tradicionalista, do nacionalismo autoritário e do
corporativismo católico. Não se enquadrando plenamente nem no fascismo nem na
democracia liberal, apresentou-se, antes de tudo e com eficácia, como baluarte
anticomunista do Ocidente.
Quanto à dita saudação
Fascista/Nazi
O cumprimento “fascista” com a
palma da mão levantada, hoje criminalizado em muitos países onde é interpretado
como incitamento ao ódio; nada mais é do que se julga ter sido originalmente a
saudação romana, na sua ligação com um passado mítico, símbolo da romanidade —
à qual os países do sul da Europa tanto devem.
Vejamos a sua génese.
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“O Juramento dos Horácios”, de Jacques-Louis David, 1784, Museu do Louvre. |
1919, Fiume (atual Rijeka) — O prolífico
romancista, dramaturgo, poeta, político e militar Gabriele D'Annunzio (1863-1938),
deputado italiano independente (1897), inicialmente simpatizante socialista e posteriormente
um dos mais veementes intérpretes do nacionalismo italiano, ocupa Fiume
(1919-1920), a atual Rijeka (Croácia), um porto de mar no Adriático que, não
sendo italiana, tinha uma grande população dessa origem. Durante esta curta ocupação,
adota pela primeira vez este gesto de cumprimento para os seus legionários como
símbolo de romanidade.
1919-1922, Itália — Benito Mussolini
(1933-1945), militante do Partido Socialista Italiano, e grande admirador
de D'Annunzio, apropria-se deste gesto para os seus Fasci di Combattimento
(camisas negras), tornando-o obrigatório em 1925, em substituição do aperto de
mão considerado burguês.
1926-1933,
Alemanha — Adolf Hitler (1889-1945) adota esta simbologia, oficializando-a
a partir de 1933 como saudação civil obrigatória.
♦
É
impossível não fazer a comparação entre Salazar vs. Marquês de Pombal.
Embora
separados por 200 anos, exemplos clássicos do déspota esclarecido, não lhes
poderá deixar de ser reconhecido o seu amor a Portugal.
Ambos
chegam ao poder depois de uma bancarrota nacional, ambos centralizam todo o
poder em si, ambos põem as finanças em ordem como prioridade absoluta, ambos
são autoritários, antipartidários e têm uma visão de longo prazo para o país.
E que
sorte a nossa, convenhamos. Portugal só parece funcionar quando aparece um
contabilista de província com vocação para salvar almas e contas ao mesmo
tempo. Antes deles, o caos, a gritaria, as dívidas, os ministros a fugir pela
porta do fundo. Depois deles, finalmente, silêncio, ordem e um livro-caixa
equilibrado. Que chatice para os que gostam de barulho.
Ambos
chegam com a mesma receita, de uma simplicidade genial: primeiro, fechar a
loja. Pombal olhou para a nobreza e para os jesuítas e pensou: "Estes senhores
falam demais". Salazar olhou para os partidos da Primeira República e pensou
exatamente o mesmo. Ambos concluíram, com aquele carinho paternal que só os
grandes pedagogos têm, que o português adora falar de política, mas detesta
pagar impostos. Solução? Tira-se a política e cobra-se o imposto. Brilhante.
Ambos
centralizam todo o poder em si porque, claro, ninguém mais sabia fazer contas.
Pombal inventou o Estado moderno à força de decretos, com a sua Real Mesa
Censória a explicar aos portugueses o que podiam ler para seu próprio bem.
Salazar modernizou a ideia com a sua Censura, lápis azul e tudo, para que
ninguém se distraísse com más influências enquanto aprendia a poupar. Dois
visionários responsáveis.
Ambos
põem as finanças em ordem como prioridade absoluta. É de uma poesia comovente.
Um reconstrói Lisboa depois do terramoto a dizer: "Enterrem-se os mortos e
cuidem-se dos vivos", que é outra forma elegante de dizer “vamos, mas é
trabalhar". O outro reconstrói um país falido e diz: "nada contra a
Nação, tudo pela Nação", que é outra forma elegante de dizer “vamos, mas é
pagar o que devemos". No fundo, dois homens a tentar explicar a um país de
poetas e descobridores que o saldo tem de ser positivo.
Ambos
deixam uma obra enorme e, ao mesmo tempo, muito contestada. Claro. Como não
haveria de ser contestada? Pombal criou companhias, fábricas, reformou a
universidade, demarcou o Douro, expulsou quem não ajudava e, quando os Távora
se mostraram desagradecidos, ofereceu-lhes um fim terrível. Salazar criou
barragens, estradas, pontes, portos, a tal ordem nas contas que até os ingleses
batiam palmas, e ofereceu aos descontentes umas férias prolongadas e arejadas
no Tarrafal, também muito pedagógicas. São estes pormenores de gestão de
recursos humanos que os ingratos nunca perdoam. Que falta de visão…
Ambos
foram proscritos: Pombal foi desterrado e, mais tarde, reabilitado pelo regime
republicano; Salazar foi barbaramente vilipendiado, por iniciativa de um grupo
político que não nos merece credibilidade e, também, sem a menor dúvida será
reabilitado quando a poeira dos tempos assentar. É o ciclo natural da gratidão
portuguesa. Primeiro apedreja-se, depois faz-se estátua. A Pombal já fizeram,
ali no cimo da Avenida, a olhar para baixo com aquele ar de "eu bem vos
disse". Ao outro ainda hão-de fazer, quando for politicamente conveniente, redescobrir que equilíbrio orçamental não cai do céu.
Se
quisermos resumir os papéis de ambos, de maneira que todo o mundo entenda:
foram os maiores estadistas dos últimos séculos, apesar de vultos nacionais
controversos — porque tiveram a ousadia imperdoável de achar que Portugal
precisava menos de parlamentos a discutir e mais de alguém a mandar. E que,
para variar, funcionou…
JT
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| André Ventura |
Há quem não goste do discurso nem dos modos de André Ventura, porém, a sua linguagem "não canónica" não me parece ser um acidente, nem falta de preparação. É uma escolha política consciente e uma necessidade estratégica.
O discurso político tradicional
em Portugal cristalizou-se numa linguagem tecnocrática, cheia de eufemismos e
de rodeios. É uma linguagem que protege quem fala, mas que afasta quem ouve.
Foi criada para falar para dentro do sistema ─ para comentadores, para outros
partidos e até para Bruxelas.
O A. Ventura percebeu que havia
um Portugal inteiro que já não se reconhecia nessa linguagem. As camadas
populares, o interior, os pequenos comerciantes, os reformados, os jovens
precários, as pessoas que sentem que trabalham muito, pagam muitos impostos e
são as últimas a serem ouvidas. Para essas pessoas, a linguagem polida de São
Bento soa a falsidade, a distância, a superioridade.
Quando ele usa uma expressão mais direta, mais crua, mais coloquial, menos polida, quando chama as coisas pelos nomes que as pessoas usam em casa e no café, ele está a quebrar um dos muros da política. Está a dizer: "Eu falo como vocês falam. Eu penso como vocês pensam. Eu não tenho medo de dizer o que vocês dizem todos os dias, mas que ninguém tem coragem de dizer na televisão."
Isso cria empatia imediata por três mecanismos:
2. Autenticidade percebida. Num tempo de desconfiança total
nos políticos, a imperfeição linguística torna-se prova de verdade. Se não está
a ler um discurso escrito por assessores, então deve estar a falar de coração.
3. Coragem. Usar linguagem não canónica num espaço onde
todos usam gravata e medem as palavras é visto como um ato de coragem, de
alguém que está disposto a pagar o preço do politicamente incorreto para
defender o povo.
Daí o sucesso estrondoso e crescente. Não é apesar da
linguagem não canónica, é por causa dela. Cada ataque dos media tradicionais e
dos partidos do sistema à sua forma de falar e de estar reforça a sua mensagem
central: "Estão a atacar-me porque eu sou como vocês, e eles têm medo de
vocês."
É uma estratégia populista no sentido clássico e mais eficaz
do termo: encurtar ao máximo a distância entre o representante e o
representado, usando a linguagem como ponte. Desde o Afonso Costa da 1.ª
República (de sinal contrário), já lá vai um século, não havia um político
igual, o qual tenho a certeza de que irá ser governo neste país, graças à sua
inteligência superior que dá dez a zero à maioria da classe política
abrileira...
Joao Trigueiros

Tenho saudades daquele miúdo que eu era na adolescência, quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é um ato de fé na humanidade.
| Priamukhino, propriedade senhorial dos Bakunin |
O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.
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| Priamukhino, capela. |
Homem viajado e conhecedor do
mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes
intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande
paixão.
Fez parte do “Círculo de
Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831
na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura
carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e
filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à
autocracia imperial.
Jamais poderei esquecer este personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que, já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está próximo do fim.
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| Berna, Cemitério de Bremgarten, sepultura de Mikhail Bakunin. |
Depois cresci, e então vi que o futuro não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio, porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser extremista...
O libertário que fui acreditava
que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem
autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais
esperto, do mais sem vergonha...
Talvez, por isso, hoje o meu antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.
O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de
dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso
ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem
responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira
selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.
Deixei de ter ilusões sobre a bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.
É uma inocência perdida, sim, mas
é também uma lucidez ganha.
jt
OBRIGADO.
Se não fossem Vocês, o que seria de nós?
É uma pergunta que nos assombra. Felizmente nunca teremos de
responder, porque Vocês estão sempre aí. Firmes. Presentes. Imprescindíveis.
Obrigado por nos protegerem de nós próprios. Nós, ingénuos,
achávamos que o país precisava de saúde, de escola, de casas e de salários que
dessem para viver. Vocês, com a vossa visão superior, explicaram-nos que o país
precisa é de mais comissões, mais observatórios, mais planos estratégicos…
Obrigado pelo vosso sacrifício. Ganhar mal, trabalhar muito,
viver com angústia de não saber se vamos chegar ao fim do mês….
Obrigado por nos ensinarem economia. A nos pedirem para
apertarmos o cinto enquanto Vocês alargam o vosso. É pedagogia no seu estado
mais puro.
Obrigado pela vossa humildade. Por nunca terem culpa de
nada. A culpa é sempre do governo anterior, da conjuntura internacional, do
povo que não entende, do tempo que não ajudou. É bonito ver tanta gente
inocente junta num só sítio.
Obrigado por nos salvarem todos os dias. Se não fossem
Vocês, quem nos ia prometer tudo de novo a cada quatro anos? Quem nos ia dizer
que agora é que vai ser?
Se não fossem Vocês, o que seria de nós?
Provavelmente um país chato, normal e a funcionar. Deus nos
livre de tal desgraça.
Continuem. Por nós.
Puro humor...
Lavrentiy Beria (1899-1953), esse artesão da sombra, foi o maestro mais longevo da polícia secreta soviética — um funcionário tão dedicado que transformou o terror num expediente administrativo. Subiu pelo Partido como quem escala uma pilha de cadáveres, até se instalar ao lado de Stalin, onde coordenou expurgos, Gulags e toda a engenharia da crueldade que o regime exigia. Ambição febril, astúcia oleosa, uma sede de poder que nem os próprios fantasmas conseguiam saciar — Beria era isso tudo, e ainda mais.
Depois, quando o protetor morreu,
o destino fez-lhe a cortesia de um julgamento rápido e uma execução ainda mais
rápida. Décadas depois (nos anos 90), encontraram cadáveres enterrados junto à
sua casa de Moscovo — lembranças discretas de serviços prestados.
E agora, o nosso Beria figurado…
esse não precisa de pistolas nem de caves de tortura. Basta-lhe o silêncio dos
outros.
Quantos “expurgos” conhece,
quantas vidas tem penduradas nos cordéis da sua influência, quantas bocas
aprendeu a fechar sem levantar a voz. Não mata ninguém — não precisa.
Há quem se cale por antecipação,
por prudência, por medo, ou simplesmente porque já percebeu que, perante ele,
falar é uma forma lenta de suicídio social.
Quantos segredos conhecerá?
Quantas pessoas terá nas mãos? Quantas bocas terão aprendido, por prudência, a
permanecer fechadas?
Hoje já não é preciso uma polícia
secreta. Bastam poder, influência, alguns dossiers e uma boa capacidade para
lembrar aos outros aquilo que eles preferiam esquecer.
Naturalmente, isto é apenas uma
comparação.
Qualquer semelhança com a
realidade será, evidentemente, mera coincidência — dessas coincidências que,
por medo e cobardia, fazem muita gente ficar subitamente muito calada.
Estejam descansados, o nosso
Beria Luso, não enterra cadáveres no quintal. Enterra consciências. E fá-lo com
a mesma eficiência burocrática do original.
Ele, ofegante, esbraceja e esforça‑se
por calar tudo à sua volta, como um zelador do
silêncio alheio. Mas há
sempre aquele “único homem de coragem” que lhe escapa — determinado,
persistente e absolutamente convicto de que a sua voz não é para arquivar. O tirano metafórico
tenta, insiste, aperta… e ele continua a falar, com a
serenidade de quem sabe que não se dobra
e é a única nota dissonante que o maestro do silêncio não consegue abafar – de seu nome
ANDRÉ VENTURA.
- Sátira -
Há países que procuram aprender com os seus erros. Depois há a CHEMEKOLÂNDIA, um país inteiramente imaginário onde os erros são elevados à categoria de política de Estado e o absurdo é tratado como património nacional.
Na CHEMEKOLÂNDIA, tudo funciona ao contrário do bom senso. O mérito é visto com desconfiança, a competência é considerada um defeito e a honestidade desperta imediatamente suspeitas. Quem trabalha demasiado é acusado de querer estragar o equilíbrio social; quem nada faz é frequentemente recompensado pelo seu extraordinário talento para aparentar actividade.
Os seus habitantes, os lendários CHEMEKOS, vivem numa realidade paralela onde as aparências valem infinitamente mais do que os factos. São mestres na arte de transformar propaganda em verdade, promessas em feitos históricos e fracassos monumentais em vitórias inesquecíveis. A imaginação é tão fértil que conseguem celebrar inaugurações de obras ainda por começar e festejar sucessos que só existem nos discursos oficiais.
Na saúde, a lógica CHEMEKA é simples: quanto pior o serviço, mais satisfeitos devem estar os cidadãos por ainda conseguirem sobreviver. As listas de espera tornam-se uma forma de meditação colectiva, enquanto a falta de recursos é apresentada como uma inovadora política de austeridade terapêutica. Se um hospital funciona, é considerado um acidente administrativo que deve ser rapidamente corrigido.
Na educação, ensina-se sobretudo a decorar slogans e a evitar perguntas incómodas. O pensamento crítico é tratado como comportamento anti-social e a ignorância cuidadosamente cultivada, porque uma população bem informada poderia tornar-se perigosamente difícil de manipular. Os diplomas multiplicam-se com facilidade, mas o conhecimento continua a ser um artigo raro.
A segurança pública segue princípios igualmente originais. O criminoso é tratado com delicadeza burocrática, enquanto o cidadão honesto passa boa parte do tempo a justificar porque deseja viver em tranquilidade. As leis parecem escritas para confundir quem as cumpre e facilitar a vida a quem as contorna.
A administração pública é um verdadeiro espectáculo de ilusionismo. Um documento simples percorre tantos gabinetes que acaba por adquirir valor arqueológico antes de receber o primeiro carimbo. As filas são consideradas um elemento essencial da identidade nacional, e a lentidão administrativa é defendida como tradição cultural.
Na economia, produzir riqueza é secundário; o importante é distribuir favores. O empreendedor é observado com desconfiança, mas o especialista em influências sociais sobe rapidamente na carreira. O orçamento público funciona como um poço sem fundo onde desaparecem recursos com uma eficiência que nunca se verifica nos serviços prestados.
A corrupção, naturalmente fictícia nesta sátira, é encarada pelos CHEMEKOS como uma forma particularmente criativa de empreendedorismo. Os pequenos favores chamam-se amizades, os grandes esquemas recebem nomes técnicos e os conflitos de interesses são descritos como simples coincidências familiares. Quando alguém é apanhado, proclama-se imediatamente vítima de uma perseguição ou de um gigantesco mal-entendido.
O roubo é frequentemente disfarçado de gestão, a fraude de inovação e o oportunismo de visão estratégica. O impostor é admirado pela confiança com que fala sobre assuntos que desconhece completamente, enquanto quem demonstra verdadeira competência corre o risco de ser considerado um elemento desestabilizador.
Mas talvez a característica mais marcante dos CHEMEKOS seja o gosto pela permanente vida de faz de conta. Fazem de conta que governam, fazem de conta que fiscalizam, fazem de conta que reformam, fazem de conta que trabalham e, sobretudo, fazem de conta que tudo corre às mil maravilhas. As estatísticas são cuidadosamente penteadas, os discursos abundantemente enfeitados e a realidade mantida a uma distância confortável.
No fim de cada dia, todos regressam satisfeitos às suas casas imaginárias, convencidos de viver no melhor dos mundos possíveis, enquanto os problemas continuam exactamente onde estavam.
Afinal, na CHEMEKOLÂNDIA, resolver dificuldades seria um hábito perigoso: poderia destruir toda a tradição nacional de fingir que elas não existem.
Felizmente, a CHEMEKOLÂNDIA existe apenas na imaginação. Porque, se um lugar assim fosse real, seria difícil distinguir onde terminava a sátira e começava a realidade...
♥
Nota:
Este texto é uma homenagem póstuma ao meu velho amigo
Gustavo Saraiva (m. 9-IV-2010), companheiro de aventuras com quem, há muitas
décadas, atravessei a Europa rumo a um dos gloriosos paraísos da então
"Cortina de Ferro", onde a igualdade era tão perfeita que até as
prateleiras dos supermercados tinham o privilégio de permanecer igualmente
vazias.
Sempre que alguém nos perguntava de onde vínhamos, o Gustavo percebia de imediato que responder "Portugal" abriria inevitavelmente a porta a um interrogatório diplomático. Com um ar de absoluta seriedade e um brilho malandro nos olhos, respondia:
— Somos Chemekos, da ChemeKolândia... algures em África.
A resposta era tão absurda quanto convincente. E o mais divertido era ver os interlocutores aceitarem a informação com a solenidade de quem acabara de aumentar o seu conhecimento geográfico. Ninguém ousava confessar que nunca tinha ouvido falar daquele extraordinário país. Pelo contrário, acenavam respeitosamente, como se a ChemeKolândia fosse um membro fundador das Nações Unidas.
O Gustavo divertia-se perdidamente com aquela pequena fraude geopolítica, uma obra-prima de humor seco que hoje dificilmente sobreviveria à era da Wikipédia e dos telemóveis. Bastavam cinco segundos para desmontar a fantasia; naquela época, bastava um sorriso para a tornar absolutamente credível.
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| Gustavo, Praga, |
Hoje, ao recordar esta história, percebo que a ChemeKolândia nunca existiu nos mapas. Existiu apenas onde nascem as melhores amizades: no território ilimitado da memória, do riso e da saudade.
Até sempre, Gustavo. Onde quer que estejas, espero que já tenhas convencido alguém de que o Paraíso fica mesmo ao lado da ChemeKolândia.
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| Portimão, Av. Tomás Cabreira (marginal) |
O heliponto — esse delírio de ostentação — é a cereja tóxica
no topo do bolo. Instalado a poucos metros das casas vizinhas, promete ruído,
vento, poeira e a arrogância de quem acha que a cidade existe para servir os
seus caprichos. É um símbolo perfeito de uma arquitectura que não dialoga:
atropela. Não integra: impõe. Não respeita: domina. A Praia da Rocha, já
marcada por décadas de excessos, ganha assim mais um monumento ao desprezo pela
escala humana.
Consta — ainda sem confirmação oficial, mas repetido em surdina por quem acompanha a vida autárquica — que o único voto contra este mamarracho partiu do único vereador eleito de um partido recém‑nascido, com pouco mais de seis anos de existência. Se assim for, o episódio é quase simbólico: num mar de conformismo, foi preciso um estreante para levantar a sua mão limpa e dizer “basta”. Parabéns, porque a coragem política e a honestidade andam escassas, sobretudo quando o assunto envolve betão, vistas roubadas e interesses que se movem com a delicadeza de um rolo compressor.
| Praia da Rocha, "abarracamentos comerciais" entre a marginal Rua Tomás Cabreira e a praia. |
Portimão não precisa de mais mastodontes, nem de mais helipontos, nem de mais episódios dignos de teatro do absurdo.
Basta da contínua barreira comercial ao longo da Avenida Tomás Cabreira, formando um muro de abarracamentos que bloqueia a vista da praia e estrangula a relação entre marginal e mar.
É preciso autarcas com o mínimo de qualificações e de
sensibilidade. Que estes não têm minimamente, para entenderem que num urbanismo
de praia, DESENVOLVIMENTO é o gesto bruto de quem ergue paredes onde
antes havia horizonte. PROGRESSO é o cuidado raro de quem sabe que a
paisagem não é decoração: é respiração colectiva.
DESENVOLVIMENTO empilha blocos que amputam o mar,
privatizam a luz e transformam a falésia num adereço para folhetos
imobiliários. PROGRESSO, esse, tenta salvar o que resta da delicadeza do
lugar — o vento que chega limpo, a linha azul que não devia ser negociável, o
simples acto de ver o mar sem pedir licença.
Os portimonenses, por sua culpa, têm a infelicidade de
elegerem autarcas que tratam a cidade e a praia como activos financeiros, como
se o horizonte fosse um bem transaccionável e a paisagem um luxo que se pode
vender ao metro quadrado...
A Praia da Rocha precisa de uma
limpeza profunda — urbanística, ética e política — capaz de devolver à cidade o
horizonte que lhe roubaram. Se necessário, levando à Justiça quem
eventualmente, com ilegalidades, vai enchendo os bolsos...
jt
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| Praia da Rocha, Avenida Marginal (actual Rua Tomás Cabreira) |
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| Praia da Rocha, Avenida Marginal (actual Rua Tomás Cabreira) |
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| Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista |
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| Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista |
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| Carlão |
Ó CARLÃO, meu estratega de café!
Agradecemos a tua inquietação com a “ascensão da extrema‑direita
e do fascismo”. É
comovente, quase enternecedor. Só há um pequeno detalhe: essa tal “extrema‑direita” que te atormenta nem sequer conseguiu pôr um pé na Assembleia da República, quanto mais no governo.
O nosso verdadeiro problema não é a ameaça imaginária que tu
vês ao longe — é o facto de tu não saberes distinguir uma ditadura corporativa de um fascismo à Mussolini ou à Hitler. Para ti, tudo o que não cabe
na tua playlist ideológica é fascismo.
E já agora, Carlão, enquanto te ocupas a cantar loas ao
perigo inexistente, os teus amigos — e amigas do peito — continuam alegremente
a capturar os recursos públicos para subsidiar as vossas cantorias e parvoíces, essas obras‑primas produzidas pelos vossos neurónios em modo de poupança energética.
No fundo, o fascismo que mais nos preocupa é o teu: o
fascismo intelectual, aquele que transforma ignorância em convicção e convicção
em espectáculo.
Pois, cada vez que abres a boca para anunciar a “ascensão da extrema‑direita”, parece que estás a lançar um novo single: muito drama, pouca substância e zero fact‑checking. A extrema‑direita, segundo tu, já anda a rondar as portas da democracia como se fosse um DJ atrasado para o set — pena é que, na realidade, ainda nem conseguiu entrar na discoteca.
Depois vens com o teu clássico: “Agora os racistas assumem‑se.” Pois claro, Carlão, obrigado
pela revelação sociológica
que ninguém pediu. É
sempre reconfortante ouvir análises
profundas de quem acha que o país está à beira do abismo porque meia dúzia de comentários no
Twitter ficaram mais barulhentos.
E quando decides falar de política internacional, então é
que a festa pega fogo: Trump vira “pato donald”, Elon Musk vira “palhaço do X”,
e tu transformas a geopolítica numa espécie de stand‑up mal
ensaiado.
No fundo, Carlão, tu és o único artista capaz de transformar
preocupações vagas em profecias apocalípticas, e opiniões de café em alertas
democráticos. A tua análise política tem a profundidade de uma story de 15
segundos — mas com a vantagem de ser subsidiada.
Continua, Carlão. Cada vez que falas, a democracia treme…
mas só de rir.
SEGURO vs. VENTURA
SEGURO não fala; procede à leitura solene de documentos. A sua ideia de eloquência parece consistir em demonstrar que domina, sem sobressaltos, a difícil arte de seguir uma linha de texto até ao fim. Quando sobe à tribuna, a expectativa da assistência não recai sobre o pensamento que possa emergir, mas sobre a espessura do maço de folhas que o acompanha. O papel não é um apoio: é o verdadeiro protagonista da sessão.
A sua dependência do texto é de tal ordem que, se uma corrente de ar lhe desorganizasse os apontamentos, assistir-se-ia provavelmente a um dos mais embaraçosos naufrágios intelectuais da vida pública portuguesa. Ficar-lhe-ia o olhar vago de quem acaba de perder não apenas as notas, mas também a própria localização das ideias.
Cada frase surge com a espontaneidade de uma circular administrativa. Cada parágrafo avança com a vivacidade de um regulamento camarário. Tudo é cauteloso, medido, filtrado, desinfectado e esterilizado até ao ponto em que já não resta uma única centelha de vida. Escutá-lo é uma experiência comparável à leitura integral de um manual de instruções, com a agravante de o manual, por vezes, conter informação útil.
Para SEGURO, as páginas preparadas pelos assessores assumem uma dignidade quase sagrada. Não as consulta: venera-as. Segue-as com a reverência de um monge copista medieval diante de um manuscrito iluminado. Cada folha parece descer directamente do Monte Sinai; cada vírgula adquire a solenidade de um mandamento. O pensamento próprio, quando existe, permanece prudentemente escondido entre duas notas de rodapé.
É comovente observar a sua coragem, desde que confinada aos limites rigorosamente assinalados pelo texto. Fora deles, o território torna-se perigoso. Há sempre o risco de surgir uma pergunta inesperada, uma ideia não previamente aprovada ou, pior ainda, a necessidade de improvisar.
Enquanto isso, a assistência entrega-se gradualmente a um estado de letargia civilizada. Não o sono comum e grosseiro, mas aquele torpor elegante dos espíritos bem-educados que, por cortesia, fingem continuar atentos enquanto a alma procura discretamente uma saída de emergência.
E é precisamente aqui que reside o espanto. Houve quem olhasse para este funcionário da leitura pública e o colocasse em competição directa com um orador capaz de improvisar, persuadir e dominar uma sala. Houve quem observasse ambos e concluísse que a burocracia merecia triunfar sobre o talento. É uma decisão que continuará a intrigar os historiadores, caso algum deles consiga permanecer acordado durante tempo suficiente para estudar o assunto.
De um lado, um homem que necessita do papel como o alpinista necessita da corda. Do outro, alguém que sobe sem rede. De um lado, a recitação. Do outro, a comunicação. De um lado, a segurança do texto previamente escrito. Do outro, o risco — e também a glória — do pensamento em movimento.
VENTURA não se limita a discursar: ocupa o espaço, desafia, provoca e prende a atenção. Fala como quem conduz uma conversa com centenas de pessoas ao mesmo tempo. Improvisa porque conhece a matéria. Adapta-se porque domina o contexto. Convence porque transmite a impressão de que as ideias lhe pertencem.
SEGURO, pelo contrário, oferece frequentemente a sensação de ser apenas o estafeta encarregado de entregar uma mensagem redigida por terceiros.
Onde um comunica, o outro lê.
Onde um persuade, o outro consulta.
Onde um procura conquistar o
público, o outro procura não perder a página.
Quando SEGURO conclui uma intervenção, o auditório recorda vagamente que ocorreu um discurso. Quando VENTURA termina, concorde-se ou não com ele, as pessoas sabem exactamente o que ouviram. E esta é uma diferença devastadora. A oratória não consiste em pronunciar palavras na ordem correcta; consiste em fazer com que sobrevivam na memória depois de terminadas.
Ao observá-los lado a lado, torna-se difícil evitar a conclusão de que a natureza distribui os seus favores de forma profundamente desigual. A alguns concede presença, rapidez de raciocínio, improvisação e magnetismo. A outros concede apenas disciplina de leitura.
SEGURO pertence, com uma consistência quase heróica, à segunda categoria. O seu maior triunfo oratório não reside em inspirar, convencer ou entusiasmar. Reside em alcançar a última página sem perder o fio da leitura. E há admiradores tão generosos que confundem esse feito administrativo com génio político.
Talvez seja essa a sua maior injustiça: ter sido avaliado como águia quando nasceu para guarda-livros. E não há nada de errado em ser guarda-livros. O problema começa quando alguém insiste em apresentar o inventário como se fosse voo.
jt