- Sátira -
Há países que procuram aprender com os seus erros. Depois há a CHEMEKOLÂNDIA, um país inteiramente imaginário onde os erros são elevados à categoria de política de Estado e o absurdo é tratado como património nacional.
Na CHEMEKOLÂNDIA, tudo funciona ao contrário do bom senso. O mérito é visto com desconfiança, a competência é considerada um defeito e a honestidade desperta imediatamente suspeitas. Quem trabalha demasiado é acusado de querer estragar o equilíbrio social; quem nada faz é frequentemente recompensado pelo seu extraordinário talento para aparentar actividade.
Os seus habitantes, os lendários CHEMEKOS, vivem numa realidade paralela onde as aparências valem infinitamente mais do que os factos. São mestres na arte de transformar propaganda em verdade, promessas em feitos históricos e fracassos monumentais em vitórias inesquecíveis. A imaginação é tão fértil que conseguem celebrar inaugurações de obras ainda por começar e festejar sucessos que só existem nos discursos oficiais.
Na saúde, a lógica CHEMEKA é simples: quanto pior o serviço, mais satisfeitos devem estar os cidadãos por ainda conseguirem sobreviver. As listas de espera tornam-se uma forma de meditação colectiva, enquanto a falta de recursos é apresentada como uma inovadora política de austeridade terapêutica. Se um hospital funciona, é considerado um acidente administrativo que deve ser rapidamente corrigido.
Na educação, ensina-se sobretudo a decorar slogans e a evitar perguntas incómodas. O pensamento crítico é tratado como comportamento anti-social e a ignorância cuidadosamente cultivada, porque uma população bem informada poderia tornar-se perigosamente difícil de manipular. Os diplomas multiplicam-se com facilidade, mas o conhecimento continua a ser um artigo raro.
A segurança pública segue princípios igualmente originais. O criminoso é tratado com delicadeza burocrática, enquanto o cidadão honesto passa boa parte do tempo a justificar porque deseja viver em tranquilidade. As leis parecem escritas para confundir quem as cumpre e facilitar a vida a quem as contorna.
A administração pública é um verdadeiro espectáculo de ilusionismo. Um documento simples percorre tantos gabinetes que acaba por adquirir valor arqueológico antes de receber o primeiro carimbo. As filas são consideradas um elemento essencial da identidade nacional, e a lentidão administrativa é defendida como tradição cultural.
Na economia, produzir riqueza é secundário; o importante é distribuir favores. O empreendedor é observado com desconfiança, mas o especialista em influências sociais sobe rapidamente na carreira. O orçamento público funciona como um poço sem fundo onde desaparecem recursos com uma eficiência que nunca se verifica nos serviços prestados.
A corrupção, naturalmente fictícia nesta sátira, é encarada pelos CHEMEKOS como uma forma particularmente criativa de empreendedorismo. Os pequenos favores chamam-se amizades, os grandes esquemas recebem nomes técnicos e os conflitos de interesses são descritos como simples coincidências familiares. Quando alguém é apanhado, proclama-se imediatamente vítima de uma perseguição ou de um gigantesco mal-entendido.
O roubo é frequentemente disfarçado de gestão, a fraude de inovação e o oportunismo de visão estratégica. O impostor é admirado pela confiança com que fala sobre assuntos que desconhece completamente, enquanto quem demonstra verdadeira competência corre o risco de ser considerado um elemento desestabilizador.
Mas talvez a característica mais marcante dos CHEMEKOS seja o gosto pela permanente vida de faz de conta. Fazem de conta que governam, fazem de conta que fiscalizam, fazem de conta que reformam, fazem de conta que trabalham e, sobretudo, fazem de conta que tudo corre às mil maravilhas. As estatísticas são cuidadosamente penteadas, os discursos abundantemente enfeitados e a realidade mantida a uma distância confortável.
No fim de cada dia, todos regressam satisfeitos às suas casas imaginárias, convencidos de viver no melhor dos mundos possíveis, enquanto os problemas continuam exactamente onde estavam.
Afinal, na CHEMEKOLÂNDIA, resolver dificuldades seria um hábito perigoso: poderia destruir toda a tradição nacional de fingir que elas não existem.
Felizmente, a CHEMEKOLÂNDIA existe apenas na imaginação. Porque, se um lugar assim fosse real, seria difícil distinguir onde terminava a sátira e começava a realidade...
♥
Nota:
Este texto é uma homenagem póstuma ao meu velho amigo
Gustavo Saraiva (m. 9-IV-2010), companheiro de aventuras com quem, há muitas
décadas, atravessei a Europa rumo a um dos gloriosos paraísos da então
"Cortina de Ferro", onde a igualdade era tão perfeita que até as
prateleiras dos supermercados tinham o privilégio de permanecer igualmente
vazias.
Sempre que alguém nos perguntava de onde vínhamos, o Gustavo percebia de imediato que responder "Portugal" abriria inevitavelmente a porta a um interrogatório diplomático. Com um ar de absoluta seriedade e um brilho malandro nos olhos, respondia:
— Somos Chemekos, da ChemeKolândia... algures em África.
A resposta era tão absurda quanto convincente. E o mais divertido era ver os interlocutores aceitarem a informação com a solenidade de quem acabara de aumentar o seu conhecimento geográfico. Ninguém ousava confessar que nunca tinha ouvido falar daquele extraordinário país. Pelo contrário, acenavam respeitosamente, como se a ChemeKolândia fosse um membro fundador das Nações Unidas.
O Gustavo divertia-se perdidamente com aquela pequena fraude geopolítica, uma obra-prima de humor seco que hoje dificilmente sobreviveria à era da Wikipédia e dos telemóveis. Bastavam cinco segundos para desmontar a fantasia; naquela época, bastava um sorriso para a tornar absolutamente credível.
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| Gustavo, Praga, |
Hoje, ao recordar esta história, percebo que a ChemeKolândia nunca existiu nos mapas. Existiu apenas onde nascem as melhores amizades: no território ilimitado da memória, do riso e da saudade.
Até sempre, Gustavo. Onde quer que estejas, espero que já tenhas convencido alguém de que o Paraíso fica mesmo ao lado da ChemeKolândia.














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