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| António de Oliveira Salazar (1889-1970) |
Chamar fascista a António
Oliveira Salazar (1889-1970) é esquecer que os fascistas portugueses
mais autênticos, liderados por Francisco Rolão Preto (1893-1977),
acabaram perseguidos pelo próprio regime.
Enquanto Benito Mussolini
(1933-1945) sonhava com impérios, camisas-negras e multidões em marcha,
Salazar sonhava com orçamentos equilibrados, aldeias tranquilas e cidadãos que
não levantassem problemas.
O fascismo português teve
dono, e não era Salazar. Quando os nacional-sindicalistas de Rolão Preto
tentaram importar para Portugal a energia e a estética do fascismo europeu,
descobriram rapidamente que o Estado Novo não apreciava concorrência
ideológica. O resultado foi a repressão do movimento e o exílio de Rolão Preto
na Espanha, onde colaborou e acompanhou o movimento fascista de José António
Primo de Rivera (1903-1936).
Em certo sentido, aplicou-se a
velha regra: ao fascismo português, Salazar deu o tratamento que qualquer
ditadura reserva aos rivais, mesmo quando estes se dizem seus parentes. Ou, em
linguagem popular: cada um recebeu o que era seu, o fascismo ficou com Rolão
Preto, a ditadura conservadora ficou com Salazar.
Importa notar que esta é uma
interpretação entre várias.
Acrescente-se mais dois ou três desmiolados, autoproclamados sociólogos, com viés ideológico, os quais ocupam cátedras em madraças socialistas, onde subvertem a nossa juventude.
Toda esta gente perturbada transformou
a sua recusa da medicina numa filosofia de vida: não procura tratamento, não
toma medicamentos e exibe a própria teimosia como medalha de mérito. Depois
surpreendem-se ao descobrir que são relegados para o lixo da história. Deste
modo, os seus padecimentos não têm cura, visto não procurarem informação descomprometida,
à margem dos enviesados manifestos ideológicos…
♦
Quanto à natureza do regime
A ITÁLIA
FASCISTA (1922-1943): Era revolucionária, queria romper com o passado liberal e
criar uma nova civilização romana, moderna, industrial e imperial. Defendia a
ideia de renascimento nacional depois da decadência.
O fascismo italiano foi uma
ditadura da mobilização, da encenação e da exibição da modernidade.
ESTADO NOVO
PORTUGUÊS (1933-1974): Era conservador e contrarrevolucionário. Salazar vinha
do catolicismo social e do integralismo. Não queria criar um homem novo
futurista, queria conservar o homem antigo: rural, católico, obediente,
resignado. Ele próprio dizia em 1934: "O nosso Estado não é fascista, pela
sua essência, pelos seus fins, pelos seus meios". A sua base era a ordem,
não a revolução.
O Estado Novo
foi uma ditadura da contenção, da prudência e da conservação, combinando
elementos do conservadorismo tradicionalista, do nacionalismo autoritário e do
corporativismo católico. Não se enquadrando plenamente nem no fascismo nem na
democracia liberal, apresentou-se, antes de tudo e com eficácia, como baluarte
anticomunista do Ocidente.
Quanto à dita saudação
Fascista/Nazi
O cumprimento “fascista” com a
palma da mão levantada, hoje criminalizado em muitos países onde é interpretado
como incitamento ao ódio; nada mais é do que se julga ter sido originalmente a
saudação romana, na sua ligação com um passado mítico, símbolo da romanidade —
à qual os países do sul da Europa tanto devem.
Vejamos a sua génese.
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| “O Juramento dos Horácios”, de Jacques-Louis David, 1784, Museu do Louvre. |
O gesto foi depois popularizado no teatro, no cinema e nos quadros patrióticos do século XIX como símbolo de disciplina e lealdade à pátria, nada tendo a ver com o fascismo.
1919, Fiume (atual Rijeka) — O prolífico
romancista, dramaturgo, poeta, político e militar Gabriele D'Annunzio (1863-1938),
deputado italiano independente (1897), inicialmente simpatizante socialista e posteriormente
um dos mais veementes intérpretes do nacionalismo italiano, ocupa Fiume
(1919-1920), a atual Rijeka (Croácia), um porto de mar no Adriático que, não
sendo italiana, tinha uma grande população dessa origem. Durante esta curta ocupação,
adota pela primeira vez este gesto de cumprimento para os seus legionários como
símbolo de romanidade.
1919-1922, Itália — Benito Mussolini
(1933-1945), militante do Partido Socialista Italiano, e grande admirador
de D'Annunzio, apropria-se deste gesto para os seus Fasci di Combattimento
(camisas negras), tornando-o obrigatório em 1925, em substituição do aperto de
mão considerado burguês.
1926-1933,
Alemanha — Adolf Hitler (1889-1945) adota esta simbologia, oficializando-a
a partir de 1933 como saudação civil obrigatória.
♦
É
impossível não fazer a comparação entre Salazar vs. Marquês de Pombal.
Embora
separados por 200 anos, exemplos clássicos do déspota esclarecido, não lhes
poderá deixar de ser reconhecido o seu amor a Portugal.
Ambos
chegam ao poder depois de uma bancarrota nacional, ambos centralizam todo o
poder em si, ambos põem as finanças em ordem como prioridade absoluta, ambos
são autoritários, antipartidários e têm uma visão de longo prazo para o país.
E que
sorte a nossa, convenhamos. Portugal só parece funcionar quando aparece um
contabilista de província com vocação para salvar almas e contas ao mesmo
tempo. Antes deles, o caos, a gritaria, as dívidas, os ministros a fugir pela
porta do fundo. Depois deles, finalmente, silêncio, ordem e um livro-caixa
equilibrado. Que chatice para os que gostam de barulho.
Ambos
chegam com a mesma receita, de uma simplicidade genial: primeiro, fechar a
loja. Pombal olhou para a nobreza e para os jesuítas e pensou: "Estes senhores
falam demais". Salazar olhou para os partidos da Primeira República e pensou
exatamente o mesmo. Ambos concluíram, com aquele carinho paternal que só os
grandes pedagogos têm, que o português adora falar de política, mas detesta
pagar impostos. Solução? Tira-se a política e cobra-se o imposto. Brilhante.
Ambos
centralizam todo o poder em si porque, claro, ninguém mais sabia fazer contas.
Pombal inventou o Estado moderno à força de decretos, com a sua Real Mesa
Censória a explicar aos portugueses o que podiam ler para seu próprio bem.
Salazar modernizou a ideia com a sua Censura, lápis azul e tudo, para que
ninguém se distraísse com más influências enquanto aprendia a poupar. Dois
visionários responsáveis.
Ambos
põem as finanças em ordem como prioridade absoluta. É de uma poesia comovente.
Um reconstrói Lisboa depois do terramoto a dizer: "Enterrem-se os mortos e
cuidem-se dos vivos", que é outra forma elegante de dizer “vamos, mas é
trabalhar". O outro reconstrói um país falido e diz: "nada contra a
Nação, tudo pela Nação", que é outra forma elegante de dizer “vamos, mas é
pagar o que devemos". No fundo, dois homens a tentar explicar a um país de
poetas e descobridores que o saldo tem de ser positivo.
Ambos
deixam uma obra enorme e, ao mesmo tempo, muito contestada. Claro. Como não
haveria de ser contestada? Pombal criou companhias, fábricas, reformou a
universidade, demarcou o Douro, expulsou quem não ajudava e, quando os Távora
se mostraram desagradecidos, ofereceu-lhes um fim terrível. Salazar criou
barragens, estradas, pontes, portos, a tal ordem nas contas que até os ingleses
batiam palmas, e ofereceu aos descontentes umas férias prolongadas e arejadas
no Tarrafal, também muito pedagógicas. São estes pormenores de gestão de
recursos humanos que os ingratos nunca perdoam. Que falta de visão…
Ambos
foram proscritos: Pombal foi desterrado e, mais tarde, reabilitado pelo regime
republicano; Salazar foi barbaramente vilipendiado, por iniciativa de um grupo
político que não nos merece credibilidade e, também, sem a menor dúvida será
reabilitado quando a poeira dos tempos assentar. É o ciclo natural da gratidão
portuguesa. Primeiro apedreja-se, depois faz-se estátua. A Pombal já fizeram,
ali no cimo da Avenida, a olhar para baixo com aquele ar de "eu bem vos
disse". Ao outro ainda hão-de fazer, quando for politicamente conveniente, redescobrir que equilíbrio orçamental não cai do céu.
Se
quisermos resumir os papéis de ambos, de maneira que todo o mundo entenda:
foram os maiores estadistas dos últimos séculos, apesar de vultos nacionais
controversos — porque tiveram a ousadia imperdoável de achar que Portugal
precisava menos de parlamentos a discutir e mais de alguém a mandar. E que,
para variar, funcionou…
JT








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