2026-07-10

CHEMEKOLÂNDIA: o Reino do Mundo às Avessas

- Sátira -

Há países que procuram aprender com os seus erros. Depois há a CHEMEKOLÂNDIA, um país inteiramente imaginário onde os erros são elevados à categoria de política de Estado e o absurdo é tratado como património nacional. 

Na CHEMEKOLÂNDIA, tudo funciona ao contrário do bom senso. O mérito é visto com desconfiança, a competência é considerada um defeito e a honestidade desperta imediatamente suspeitas. Quem trabalha demasiado é acusado de querer estragar o equilíbrio social; quem nada faz é frequentemente recompensado pelo seu extraordinário talento para aparentar actividade. 

Os seus habitantes, os lendários CHEMEKOS, vivem numa realidade paralela onde as aparências valem infinitamente mais do que os factos. São mestres na arte de transformar propaganda em verdade, promessas em feitos históricos e fracassos monumentais em vitórias inesquecíveis. A imaginação é tão fértil que conseguem celebrar inaugurações de obras ainda por começar e festejar sucessos que só existem nos discursos oficiais. 

Na saúde, a lógica CHEMEKA é simples: quanto pior o serviço, mais satisfeitos devem estar os cidadãos por ainda conseguirem sobreviver. As listas de espera tornam-se uma forma de meditação colectiva, enquanto a falta de recursos é apresentada como uma inovadora política de austeridade terapêutica. Se um hospital funciona, é considerado um acidente administrativo que deve ser rapidamente corrigido. 

Na educação, ensina-se sobretudo a decorar slogans e a evitar perguntas incómodas. O pensamento crítico é tratado como comportamento anti-social e a ignorância cuidadosamente cultivada, porque uma população bem informada poderia tornar-se perigosamente difícil de manipular. Os diplomas multiplicam-se com facilidade, mas o conhecimento continua a ser um artigo raro. 

A segurança pública segue princípios igualmente originais. O criminoso é tratado com delicadeza burocrática, enquanto o cidadão honesto passa boa parte do tempo a justificar porque deseja viver em tranquilidade. As leis parecem escritas para confundir quem as cumpre e facilitar a vida a quem as contorna. 

A administração pública é um verdadeiro espectáculo de ilusionismo. Um documento simples percorre tantos gabinetes que acaba por adquirir valor arqueológico antes de receber o primeiro carimbo. As filas são consideradas um elemento essencial da identidade nacional, e a lentidão administrativa é defendida como tradição cultural. 

Na economia, produzir riqueza é secundário; o importante é distribuir favores. O empreendedor é observado com desconfiança, mas o especialista em influências sociais sobe rapidamente na carreira. O orçamento público funciona como um poço sem fundo onde desaparecem recursos com uma eficiência que nunca se verifica nos serviços prestados. 

A corrupção, naturalmente fictícia nesta sátira, é encarada pelos CHEMEKOS como uma forma particularmente criativa de empreendedorismo. Os pequenos favores chamam-se amizades, os grandes esquemas recebem nomes técnicos e os conflitos de interesses são descritos como simples coincidências familiares. Quando alguém é apanhado, proclama-se imediatamente vítima de uma perseguição ou de um gigantesco mal-entendido. 

O roubo é frequentemente disfarçado de gestão, a fraude de inovação e o oportunismo de visão estratégica. O impostor é admirado pela confiança com que fala sobre assuntos que desconhece completamente, enquanto quem demonstra verdadeira competência corre o risco de ser considerado um elemento desestabilizador. 

Mas talvez a característica mais marcante dos CHEMEKOS seja o gosto pela permanente vida de faz de conta. Fazem de conta que governam, fazem de conta que fiscalizam, fazem de conta que reformam, fazem de conta que trabalham e, sobretudo, fazem de conta que tudo corre às mil maravilhas. As estatísticas são cuidadosamente penteadas, os discursos abundantemente enfeitados e a realidade mantida a uma distância confortável. 

No fim de cada dia, todos regressam satisfeitos às suas casas imaginárias, convencidos de viver no melhor dos mundos possíveis, enquanto os problemas continuam exactamente onde estavam. 

Afinal, na CHEMEKOLÂNDIA, resolver dificuldades seria um hábito perigoso: poderia destruir toda a tradição nacional de fingir que elas não existem. 

Felizmente, a CHEMEKOLÂNDIA existe apenas na imaginação. Porque, se um lugar assim fosse real, seria difícil distinguir onde terminava a sátira e começava a realidade...

♥

Nota:

Este texto é uma homenagem póstuma ao meu velho amigo Gustavo Saraiva (m. 9-IV-2010), companheiro de aventuras com quem, há muitas décadas, atravessei a Europa rumo a um dos gloriosos paraísos da então "Cortina de Ferro", onde a igualdade era tão perfeita que até as prateleiras dos supermercados tinham o privilégio de permanecer igualmente vazias.

Sempre que alguém nos perguntava de onde vínhamos, o Gustavo percebia de imediato que responder "Portugal" abriria inevitavelmente a porta a um interrogatório diplomático. Com um ar de absoluta seriedade e um brilho malandro nos olhos, respondia:

— Somos Chemekos, da ChemeKolândia... algures em África.

A resposta era tão absurda quanto convincente. E o mais divertido era ver os interlocutores aceitarem a informação com a solenidade de quem acabara de aumentar o seu conhecimento geográfico. Ninguém ousava confessar que nunca tinha ouvido falar daquele extraordinário país. Pelo contrário, acenavam respeitosamente, como se a ChemeKolândia fosse um membro fundador das Nações Unidas.

O Gustavo divertia-se perdidamente com aquela pequena fraude geopolítica, uma obra-prima de humor seco que hoje dificilmente sobreviveria à era da Wikipédia e dos telemóveis. Bastavam cinco segundos para desmontar a fantasia; naquela época, bastava um sorriso para a tornar absolutamente credível.

Gustavo, Praga,

Foi assim que nasceu a lendária ChemeKolândia e o seu povo, os Chemekos: um país imaginário inventado por um homem com inteligência rara, humor afiado e um talento invulgar para ridicularizar, com uma única frase, a pompa, a ignorância e as certezas de quem nunca admitia dizer simplesmente: "Não faço ideia onde isso fica."

Hoje, ao recordar esta história, percebo que a ChemeKolândia nunca existiu nos mapas. Existiu apenas onde nascem as melhores amizades: no território ilimitado da memória, do riso e da saudade.

Até sempre, Gustavo. Onde quer que estejas, espero que já tenhas convencido alguém de que o Paraíso fica mesmo ao lado da ChemeKolândia.


                                             jt


2026-07-08

A PRAIA DA ROCHA EM COLAPSO

 

Portimão, Av. Tomás Cabreira (marginal)

A nova moradia de volumetria gigantesca no prolongamento da Avenida Tomás Cabreira, na Praia da Rocha, não é apenas um erro urbanístico: é uma afronta deliberada ao território, um murro de betão que se impõe à paisagem e aos cidadãos como se a cidade fosse um mero adereço descartável. O edifício, plantado sobre a frágil falésia de arenito, ergue‑se como um intruso monumental que bloqueia o mar, apaga o horizonte e transforma o espaço público num corredor de sombra. Onde antes havia luz, agora há a silhueta grotesca de um ego com licença de construção.

Implantação na falésia de arenito

O heliponto — esse delírio de ostentação — é a cereja tóxica no topo do bolo. Instalado a poucos metros das casas vizinhas, promete ruído, vento, poeira e a arrogância de quem acha que a cidade existe para servir os seus caprichos. É um símbolo perfeito de uma arquitectura que não dialoga: atropela. Não integra: impõe. Não respeita: domina. A Praia da Rocha, já marcada por décadas de excessos, ganha assim mais um monumento ao desprezo pela escala humana.

A implantação na falésia de arenito é outro capítulo desta tragédia anunciada. A erosão — acelerada pela chuva, infiltrações e décadas de negligência — já ameaça várias edificações que nunca deveriam ter sido autorizadas. A vegetação plantada à pressa e as esteiras de caniços justapostos são apenas maquilhagem barata para disfarçar riscos estruturais que todos preferem ignorar. A falésia, instável e saturada, tornou‑se um tabuleiro onde se empilham quiosques, restaurantes e agora um mastodonte residencial, todos à espera de um pequeno tremor de terra para lembrar que a natureza não negocia com licenças camarárias. 

Este caso não surge num vazio. É o produto de um município onde o absurdo se tornou rotina. O episódio do autarca que engoliu uma folha A4 com alegados indícios de crime perante agentes da Polícia Judiciária não é apenas uma anedota: é um retrato. Um retrato de uma cultura política que prefere destruir provas a enfrentar responsabilidades, que confunde poder com impunidade e que há demasiado tempo perdeu o contacto com a realidade. 

Durante 24 anos de gestão social‑democrata e 26 anos de governação socialista, Portimão acumulou investigações, buscas, detenções, pulseiras electrónicas, cauções e suspeitas de corrupção que pingam como torneira velha. Irregularidades em contratação pública, prejuízos superiores a 4,6 milhões de euros para o Estado, processos que se arrastam, acusações que se acumulam como pó nos arquivos. A própria sede nacional do partido foi recentemente alvo de buscas, lembrando ao país que a impunidade tem prazo de validade — mesmo quando alguns acreditam que não.

A construção desta moradia descomunal é, por isso, mais do que um erro de escala: é o símbolo de um ciclo político esgotado. Um ciclo onde a paisagem foi sacrificada em nome de interesses privados, onde o território foi tratado como mercadoria e onde o horizonte — esse património colectivo — foi amputado sem hesitação. A Praia da Rocha, outrora referência paisagística, tornou‑se laboratório de desvarios urbanísticos que, além de serem cada vez mais, comprometeram a segurança da falésia, descaracterizaram a marginal e transformaram o espaço público num cenário de sobrevivência estética.
Munícipes que continuam a votar nesta gente não escolhem um futuro: escolhem um sedativo. Uma dose forte o suficiente para não sentirem a decadência que lhes cai em cima todos os dias.

Consta — ainda sem confirmação oficial, mas repetido em surdina por quem acompanha a vida autárquica — que o único voto contra este mamarracho partiu do único vereador eleito de um partido recém‑nascido, com pouco mais de seis anos de existência. Se assim for, o episódio é quase simbólico: num mar de conformismo, foi preciso um estreante para levantar a sua mão limpa e dizer “basta”. Parabéns, porque a coragem política e a honestidade andam escassas, sobretudo quando o assunto envolve betão, vistas roubadas e interesses que se movem com a delicadeza de um rolo compressor.

Praia da Rocha, "abarracamentos comerciais" entre
a marginal Rua Tomás Cabreira e a praia.

Portimão não precisa de mais mastodontes, nem de mais helipontos, nem de mais episódios dignos de teatro do absurdo. 

Basta da contínua barreira comercial ao longo da Avenida Tomás Cabreira, formando um muro de abarracamentos que bloqueia a vista da praia e estrangula a relação entre marginal e mar.

É preciso autarcas com o mínimo de qualificações e de sensibilidade. Que estes não têm minimamente, para entenderem que num urbanismo de praia, DESENVOLVIMENTO é o gesto bruto de quem ergue paredes onde antes havia horizonte. PROGRESSO é o cuidado raro de quem sabe que a paisagem não é decoração: é respiração colectiva.

DESENVOLVIMENTO empilha blocos que amputam o mar, privatizam a luz e transformam a falésia num adereço para folhetos imobiliários. PROGRESSO, esse, tenta salvar o que resta da delicadeza do lugar — o vento que chega limpo, a linha azul que não devia ser negociável, o simples acto de ver o mar sem pedir licença.

Os portimonenses, por sua culpa, têm a infelicidade de elegerem autarcas que tratam a cidade e a praia como activos financeiros, como se o horizonte fosse um bem transaccionável e a paisagem um luxo que se pode vender ao metro quadrado... 

A Praia da Rocha precisa de uma limpeza profunda — urbanística, ética e política — capaz de devolver à cidade o horizonte que lhe roubaram. Se necessário, levando à Justiça quem eventualmente, com ilegalidades, vai enchendo os bolsos...

jt

♦


Plano de Urbanização, Século XX (meados)



Praia da Rocha, Avenida Marginal
(actual Rua Tomás Cabreira)
Praia da Rocha, Avenida Marginal
(actual Rua Tomás Cabreira)














Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista
Praia da Rocha, falésia com o Hotel Boavista















Praia da Rocha, Vivenda Compostela
(selvaticamente destruída)