SEGURO vs. VENTURA

SEGURO não fala; procede à leitura solene de documentos. A sua ideia de eloquência parece consistir em demonstrar que domina, sem sobressaltos, a difícil arte de seguir uma linha de texto até ao fim. Quando sobe à tribuna, a expectativa da assistência não recai sobre o pensamento que possa emergir, mas sobre a espessura do maço de folhas que o acompanha. O papel não é um apoio: é o verdadeiro protagonista da sessão.
A sua dependência do texto é de tal ordem que, se uma corrente de ar lhe desorganizasse os apontamentos, assistir-se-ia provavelmente a um dos mais embaraçosos naufrágios intelectuais da vida pública portuguesa. Ficar-lhe-ia o olhar vago de quem acaba de perder não apenas as notas, mas também a própria localização das ideias.
Cada frase surge com a
espontaneidade de uma circular administrativa. Cada parágrafo avança com a
vivacidade de um regulamento camarário. Tudo é cauteloso, medido, filtrado, desinfectado
e esterilizado até ao ponto em que já não resta uma única centelha de vida.
Escutá-lo é uma experiência comparável à leitura integral de um manual de
instruções, com a agravante de o manual, por vezes, conter informação útil.
Para SEGURO, as páginas preparadas
pelos assessores assumem uma dignidade quase sagrada. Não as consulta:
venera-as. Segue-as com a reverência de um monge copista medieval diante de um
manuscrito iluminado. Cada folha parece descer directamente do Monte Sinai;
cada vírgula adquire a solenidade de um mandamento. O pensamento próprio,
quando existe, permanece prudentemente escondido entre duas notas de rodapé.
É comovente observar a sua coragem,
desde que confinada aos limites rigorosamente assinalados pelo texto. Fora
deles, o território torna-se perigoso. Há sempre o risco de surgir uma pergunta
inesperada, uma ideia não previamente aprovada ou, pior ainda, a necessidade de
improvisar.
Enquanto isso, a assistência
entrega-se gradualmente a um estado de letargia civilizada. Não o sono comum e
grosseiro, mas aquele torpor elegante dos espíritos bem-educados que, por
cortesia, fingem continuar atentos enquanto a alma procura discretamente uma
saída de emergência.
E é precisamente aqui que reside o
espanto. Houve quem olhasse para este funcionário da leitura pública e o
colocasse em competição directa com um orador capaz de improvisar, persuadir e
dominar uma sala. Houve quem observasse ambos e concluísse que a burocracia
merecia triunfar sobre o talento. É uma decisão que continuará a intrigar os
historiadores, caso algum deles consiga permanecer acordado durante tempo
suficiente para estudar o assunto.
De um lado, um homem que necessita
do papel como o alpinista necessita da corda. Do outro, alguém que sobe sem
rede. De um lado, a recitação. Do outro, a comunicação. De um lado, a segurança
do texto previamente escrito. Do outro, o risco — e também a glória — do
pensamento em movimento.
VENTURA não se limita a discursar:
ocupa o espaço, desafia, provoca e prende a atenção. Fala como quem conduz uma
conversa com centenas de pessoas ao mesmo tempo. Improvisa porque conhece a
matéria. Adapta-se porque domina o contexto. Convence porque transmite a
impressão de que as ideias lhe pertencem.
SEGURO, pelo contrário, oferece
frequentemente a sensação de ser apenas o estafeta encarregado de entregar uma
mensagem redigida por terceiros.
Onde um comunica, o outro lê.
Onde um persuade, o outro consulta.
Onde um procura conquistar o
público, o outro procura não perder a página.
Quando SEGURO conclui uma
intervenção, o auditório recorda vagamente que ocorreu um discurso. Quando
VENTURA termina, concorde-se ou não com ele, as pessoas sabem exactamente o que
ouviram. E esta é uma diferença devastadora. A oratória não consiste em
pronunciar palavras na ordem correcta; consiste em fazer com que sobrevivam na
memória depois de terminadas.
Ao observá-los lado a lado, torna-se
difícil evitar a conclusão de que a natureza distribui os seus favores de forma
profundamente desigual. A alguns concede presença, rapidez de raciocínio,
improvisação e magnetismo. A outros concede apenas disciplina de leitura.
SEGURO pertence, com uma
consistência quase heróica, à segunda categoria. O seu maior triunfo oratório
não reside em inspirar, convencer ou entusiasmar. Reside em alcançar a última
página sem perder o fio da leitura. E há admiradores tão generosos que
confundem esse feito administrativo com génio político.
Talvez seja essa a sua maior
injustiça: ter sido avaliado como águia quando nasceu para guarda-livros. E não
há nada de errado em ser guarda-livros. O problema começa quando alguém insiste
em apresentar o inventário como se fosse voo.
jt