2026-07-08

A PRAIA DA ROCHA EM COLAPSO

 

Portimão, Av. Tomás Cabreira (marginal)


Implantação na falésia de arenito


A nova moradia de volumetria gigantesca no prolongamento da Avenida Tomás Cabreira, na Praia da Rocha, não é apenas um erro urbanístico: é uma afronta deliberada ao território, um murro de betão que se impõe à paisagem e aos cidadãos como se a cidade fosse um mero adereço descartável. O edifício, plantado sobre a frágil falésia de arenito, erguese como um intruso monumental que bloqueia o mar, apaga o horizonte e transforma o espaço público num corredor de sombra. Onde antes havia luz, agora há a silhueta grotesca de um ego com licença de construção.

O heliponto — esse delírio de ostentação — é a cereja tóxica no topo do bolo. Instalado a poucos metros das casas vizinhas, promete ruído, vento, poeira e a arrogância de quem acha que a cidade existe para servir os seus caprichos. É um símbolo perfeito de uma arquitectura que não dialoga: atropela. Não integra: impõe. Não respeita: domina. A Praia da Rocha, já marcada por décadas de excessos, ganha assim mais um monumento ao desprezo pela escala humana.

A implantação na falésia de arenito é outro capítulo desta tragédia anunciada. A erosão — acelerada pela chuva, infiltrações e décadas de negligência — já ameaça várias edificações que nunca deveriam ter sido autorizadas. A vegetação plantada à pressa e as esteiras de caniços justapostos são apenas maquilhagem barata para disfarçar riscos estruturais que todos preferem ignorar. A falésia, instável e saturada, tornouse um tabuleiro onde se empilham quiosques, restaurantes e agora um mastodonte residencial, todos à espera de um pequeno tremor de terra para lembrar que a natureza não negocia com licenças camarárias.

Este caso não surge num vazio. É o produto de um município onde o absurdo se tornou rotina. O episódio do autarca que engoliu uma folha A4 com alegados indícios de crime perante agentes da Polícia Judiciária não é apenas uma anedota: é um retrato. Um retrato de uma cultura política que prefere destruir provas a enfrentar responsabilidades, que confunde poder com impunidade e que há demasiado tempo perdeu o contacto com a realidade.

 

Durante 24 anos de gestão socialdemocrata e 26 anos de governação socialista, Portimão acumulou investigações, buscas, detenções, pulseiras electrónicas, cauções e suspeitas de corrupção que pingam como torneira velha. Irregularidades em contratação pública, prejuízos superiores a 4,6 milhões de euros para o Estado, processos que se arrastam, acusações que se acumulam como pó nos arquivos. A própria sede nacional do partido foi recentemente alvo de buscas, lembrando ao país que a impunidade tem prazo de validade — mesmo quando alguns acreditam que não.

A construção desta moradia descomunal é, por isso, mais do que um erro de escala: é o símbolo de um ciclo político esgotado. Um ciclo onde a paisagem foi sacrificada em nome de interesses privados, onde o território foi tratado como mercadoria e onde o horizonte — esse património colectivo — foi amputado sem hesitação. A Praia da Rocha, outrora referência paisagística, tornouse laboratório de desvarios urbanísticos que comprometeram a segurança da falésia, descaracterizaram a marginal e transformaram o espaço público num cenário de sobrevivência estética.

 

Munícipes que continuam a votar nesta gente não escolhem um futuro: escolhem um sedativo. Uma dose forte o suficiente para não sentirem a decadência que lhes cai em cima todos os dias.

Consta — ainda sem confirmação oficial, mas repetido em surdina por quem acompanha a vida autárquica — que o único voto contra este mamarracho partiu do único vereador eleito de um partido recémnascido, com pouco mais de seis anos de existência. Se assim for, o episódio é quase simbólico: num mar de conformismo, foi preciso um estreante para levantar a sua mão limpa e dizer “basta”. Parabéns, porque a coragem política e a honestidade andam escassas, sobretudo quando o assunto envolve betão, vistas roubadas e interesses que se movem com a delicadeza de um rolo compressor.

Portimão não precisa de mais mastodontes, nem de mais helipontos, nem de mais episódios dignos de teatro do absurdo. Precisa de uma limpeza profunda — urbanística, ética e política — capaz de devolver à cidade o horizonte que lhe roubaram. Se necessário, levando à Justiça quem eventualmente, com ilegalidades, vai enchendo os bolsos...











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