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| Portimão, Av. Tomás Cabreira (marginal) |
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| Implantação na falésia de arenito |
A nova moradia de volumetria gigantesca no prolongamento da
Avenida Tomás Cabreira, na Praia da Rocha, não é apenas um erro urbanístico: é
uma afronta deliberada ao território, um murro de betão que se impõe à paisagem
e aos cidadãos como se a cidade fosse um mero adereço descartável. O edifício,
plantado sobre a frágil falésia de arenito, ergue‑se como um intruso monumental que
bloqueia o mar, apaga o horizonte e transforma o espaço público num corredor de sombra. Onde antes havia luz, agora há a silhueta grotesca de um ego com licença de construção.
O heliponto — esse delírio de ostentação — é a cereja tóxica
no topo do bolo. Instalado a poucos metros das casas vizinhas, promete ruído,
vento, poeira e a arrogância de quem acha que a cidade existe para servir os
seus caprichos. É um símbolo perfeito de uma arquitectura que não dialoga:
atropela. Não integra: impõe. Não respeita: domina. A Praia da Rocha, já
marcada por décadas de excessos, ganha assim mais um monumento ao desprezo pela
escala humana.
A implantação na falésia de arenito é outro capítulo desta
tragédia anunciada. A erosão — acelerada pela chuva, infiltrações e décadas de
negligência — já ameaça várias edificações que nunca deveriam ter sido
autorizadas. A vegetação plantada à pressa e as esteiras de caniços justapostos
são apenas maquilhagem barata para disfarçar riscos estruturais que todos
preferem ignorar. A falésia, instável e saturada, tornou‑se um
tabuleiro onde se empilham quiosques, restaurantes e agora um mastodonte
residencial, todos à espera de um pequeno tremor de terra para lembrar que a
natureza não negocia com licenças camarárias.
Este caso não surge num vazio. É o produto de um município
onde o absurdo se tornou rotina. O episódio do autarca que engoliu uma folha A4
com alegados indícios de crime perante agentes da Polícia Judiciária não é
apenas uma anedota: é um retrato. Um retrato de uma cultura política que
prefere destruir provas a enfrentar responsabilidades, que confunde poder com
impunidade e que há demasiado tempo perdeu o contacto com a realidade.
Durante 24 anos de gestão social‑democrata e
26 anos de governação socialista, Portimão acumulou investigações,
buscas, detenções, pulseiras electrónicas, cauções e
suspeitas de corrupção que pingam como torneira
velha. Irregularidades em contratação pública, prejuízos superiores a 4,6 milhões de euros para o
Estado, processos que se arrastam, acusações que se acumulam como pó nos
arquivos. A própria sede nacional do partido foi recentemente alvo de buscas,
lembrando ao país que a impunidade tem prazo de validade — mesmo quando alguns
acreditam que não.
A construção desta moradia descomunal é, por isso, mais do
que um erro de escala: é o símbolo de um ciclo político esgotado. Um ciclo onde
a paisagem foi sacrificada em nome de interesses privados, onde o território
foi tratado como mercadoria e onde o horizonte — esse património colectivo —
foi amputado sem hesitação. A Praia da Rocha, outrora referência paisagística,
tornou‑se
laboratório de desvarios urbanísticos que comprometeram a segurança
da falésia, descaracterizaram a marginal e
transformaram o espaço público num cenário de sobrevivência estética.
Munícipes que continuam a votar nesta gente não escolhem um
futuro: escolhem um sedativo. Uma dose forte o suficiente para não sentirem a
decadência que lhes cai em cima todos os dias.
Consta — ainda sem confirmação oficial, mas repetido em
surdina por quem acompanha a vida autárquica — que o único voto contra este
mamarracho partiu do único vereador eleito de um partido recém‑nascido,
com pouco mais de seis anos de existência. Se
assim for, o episódio é quase simbólico: num mar de conformismo, foi preciso um
estreante para levantar a sua mão limpa e dizer “basta”. Parabéns, porque a
coragem política e a honestidade andam escassas, sobretudo quando o assunto
envolve betão, vistas roubadas e interesses que se movem com a delicadeza de um
rolo compressor.
Portimão não precisa de mais mastodontes, nem de mais
helipontos, nem de mais episódios dignos de teatro do absurdo. Precisa de uma
limpeza profunda — urbanística, ética e política — capaz de devolver à cidade o
horizonte que lhe roubaram. Se necessário, levando à Justiça quem
eventualmente, com ilegalidades, vai enchendo os bolsos...


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