
Tenho saudades daquele miúdo que eu era na adolescência quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é um ato de fé na humanidade.
| Priamukhino, propriedade senhorial dos Bakunin |
O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.
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| Priamukhino, capela. |
Homem viajado e conhecedor do
mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes
intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande
paixão.
Fez parte do “Círculo de
Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831
na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura
carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e
filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à
autocracia imperial.
Jamais poderei esquecer este personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que, já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está próximo do fim.
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| Berna, Cemitério de Bremgarten, sepultura de Mikhail Bakunin. |
Depois cresci, e então vi que o futuro não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio, porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser extremista...
O libertário que fui acreditava
que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem
autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais
esperto, do mais sem vergonha...
Talvez, por isso, hoje o meu antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.
O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de
dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso
ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem
responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira
selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.
Deixei de ter ilusões sobre a bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.
É uma inocência perdida, sim, mas
é também uma lucidez ganha.
jt


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