2026-09-25

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876)

 

Mikhail A. Bakunin (1814-1876)


Tenho saudades daquele miúdo que eu era na adolescência quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é um ato de fé na humanidade.

Tal o deslumbramento do miúdo que era, fiquei fascinado pelo romance histórico “O Diabo em Pontelungo” (Il Diavolo al Pontelungo), de Riccardo Bacchelli — original de 1927, que li na edição da Portugália Editora de Lisboa de 1966 — envolvendo Bakunin, assim como Carlo Cafiero e Andrea Costa, anarquistas italianos. Neste drama, passado na pequena propriedade de La Baronata, em Minusio, perto de Locarno (1873-1874), à beira do Lago Maggiore, na Suíça, onde Bakunin se instala graças ao apoio do riquíssimo aristocrata e intelectual italiano Carlo Cafiero (1846-1892), que vendeu as suas propriedades em Barletta, na Apúlia, para lhe comprar a vila.
A ideia não era um falanstério fourierista, mas garantir-lhe estatuto de proprietário para obter a cidadania suíça e ter um depósito de armas e alojamento para a internacional anarquista. Dali partiria, em julho de 1874, para Bolonha, onde fez a sua última tentativa insurrecional “para a libertação do mundo inteiro” em agosto de 1874, a qual fracassou com a prisão de Costa a 5 de agosto, obrigando-o a fugir disfarçado de padre.

Priamukhino, propriedade senhorial
 dos Bakunin

Priamukhino, Casa dos Bakunin.















Espoliado por decreto do Czar Nicolau I em dezembro de 1844 — destituído do título de nobre, dos direitos civis e com os bens confiscados —, Bakunin vinha de uma nobreza provincial, não da grande aristocracia da corte. A velha casa senhorial setecentista, uma grande e austera “usadba” — propriedade nobre —, na aldeia de Priamukhino, distrito de Torjok, em Tver, fora comprada pelo seu avô em 1779, o qual vivia do trabalho de mais de 500 servos que foram libertados por Alexandre II em 1861. Esta propriedade compreendia uma fábrica de tijolos destinada a edificar e manter todos os edifícios, e ainda uma manufatura têxtil que produzia pano grosseiro de linho para as necessidades do exército.

Tinha uma bela capela, celeiros, estufas, moinhos, estábulos de gado, viveiros de peixe no rio Ossuga que a atravessava, cascatas de lagos artificiais, banho turco, Colina do Avô, Colina Kutuzov, Alameda das Crianças, e o famoso Carvalho dos Dezembristas — plantado em 1815 pelos irmãos Muravyov, parentes dos Bakunin, em memória da sua estadia. Árvore que caiu numa tempestade no final dos anos 70 e foi replantada pelos descendentes em 1989. Os Muravyov daquela plantação não foram os enforcados de 1825; os cinco executados pelo Czar em 1826, por quererem pôr fim à autocracia e à servidão, eram de outro ramo, como Sergei Muravyov-Apostol.

O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.

Priamukhino, capela.

Homem viajado e conhecedor do mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande paixão.

Fez parte do “Círculo de Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831 na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à autocracia imperial.

Jamais poderei esquecer este personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que, já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está próximo do fim.

Berna, Cemitério de Bremgarten,
sepultura de 
Mikhail Bakunin.
Finou-se a 1 de julho de 1876, com 62 anos de idade, em Berna (Suíça), num hospital onde fora procurar tratamento, e repousa no Cemitério de Bremgarten (Bremgartenfriedhof). Rigorosamente, um século depois da sua morte, juntamente com um grande amigo de aventuras, então simpatizante libertário, o Gustavo Filipe Saraiva, jurista, fui em busca da sua sepultura para lhe prestar a minha homenagem.

Depois cresci, e então vi que o futuro não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio, porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser extremista...

O libertário que fui acreditava que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais esperto, do mais sem vergonha...

Talvez, por isso, hoje o meu antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.

O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.

Deixei de ter ilusões sobre a bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.

É uma inocência perdida, sim, mas é também uma lucidez ganha.


jt

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