
Mikhail
A. Bakunin (1814-1876)
Tenho saudades daquele miúdo que
eu era na adolescência quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei
ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado
é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o
homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser
anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é
um ato de fé na humanidade.

Tal o deslumbramento do miúdo que
era, fiquei fascinado pelo romance histórico “O Diabo em Pontelungo” (Il Diavolo al Pontelungo), de Riccardo Bacchelli — original de 1927, que li na
edição da Portugália Editora de Lisboa de 1966 — envolvendo Bakunin, assim como
Carlo Cafiero e Andrea Costa, anarquistas italianos. Neste drama, passado na
pequena propriedade de La Baronata, em Minusio, perto de Locarno (1873-1874), à
beira do Lago Maggiore, na Suíça, onde Bakunin se instala graças ao apoio do
riquíssimo aristocrata e intelectual italiano Carlo Cafiero (1846-1892), que
vendeu as suas propriedades em Barletta, na Apúlia, para lhe comprar a vila.
A
ideia não era um falanstério fourierista, mas garantir-lhe estatuto de
proprietário para obter a cidadania suíça e ter um depósito de armas e
alojamento para a internacional anarquista. Dali partiria, em julho de 1874,
para Bolonha, onde fez a sua última tentativa insurrecional “para a libertação
do mundo inteiro” em agosto de 1874, a qual fracassou com a prisão de Costa a 5
de agosto, obrigando-o a fugir disfarçado de padre.
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Priamukhino, propriedade senhorial dos Bakunin |
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| Priamukhino, Casa dos Bakunin. |
Espoliado por decreto do Czar
Nicolau I em dezembro de 1844 — destituído do título de nobre, dos direitos
civis e com os bens confiscados —, Bakunin vinha de uma nobreza provincial, não da
grande aristocracia da corte. A velha casa senhorial setecentista, uma
grande e austera “usadba” — propriedade nobre —, na aldeia de Priamukhino,
distrito de Torjok, em Tver, fora comprada pelo seu avô em 1779, o qual vivia
do trabalho de mais de 500 servos que foram libertados por Alexandre II em
1861. Esta propriedade compreendia uma fábrica de tijolos destinada a edificar
e manter todos os edifícios, e ainda uma manufatura têxtil que produzia pano grosseiro
de linho para as necessidades do exército.
Tinha uma bela capela, celeiros, estufas,
moinhos, estábulos de gado, viveiros de peixe no rio Ossuga que a atravessava, cascatas
de lagos artificiais, banho turco, Colina do Avô, Colina Kutuzov, Alameda das
Crianças, e o famoso Carvalho dos Dezembristas — plantado em 1815 pelos irmãos
Muravyov, parentes dos Bakunin, em memória da sua estadia. Árvore que caiu numa
tempestade no final dos anos 70 e foi replantada pelos descendentes em 1989. Os
Muravyov daquela plantação não foram os enforcados de 1825; os cinco executados
pelo Czar em 1826, por quererem pôr fim à autocracia e à servidão, eram de
outro ramo, como Sergei Muravyov-Apostol.
O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à
morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em
condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual
esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo
de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.
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| Priamukhino, capela. |
Homem viajado e conhecedor do
mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes
intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande
paixão.
Fez parte do “Círculo de
Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831
na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura
carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e
filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à
autocracia imperial.
Jamais poderei esquecer este
personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que,
já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está
próximo do fim.
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Berna, Cemitério de Bremgarten, sepultura de Mikhail Bakunin. |
Finou-se a 1 de julho de 1876,
com 62 anos de idade, em Berna (Suíça), num hospital onde fora procurar
tratamento, e repousa no Cemitério de Bremgarten (Bremgartenfriedhof).
Rigorosamente, um século depois da sua morte, juntamente com um grande amigo de
aventuras, então simpatizante libertário, o Gustavo Filipe Saraiva, jurista,
fui em busca da sua sepultura para lhe prestar a minha homenagem.
Depois cresci, e então vi que o futuro
não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio,
porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde
tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos
e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância
infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser
feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser
extremista...
O libertário que fui acreditava
que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem
autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais
esperto, do mais sem vergonha...
Talvez, por isso, hoje o meu
antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em
jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo
não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da
esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político
que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te
chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.
O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de
dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso
ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem
responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira
selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.
Deixei de ter ilusões sobre a
bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.
É uma inocência perdida, sim, mas
é também uma lucidez ganha.
jt