Puro humor...
Lavrentiy Beria (1899-1953), esse artesão da sombra, foi o maestro mais longevo da polícia secreta soviética — um funcionário tão dedicado que transformou o terror num expediente administrativo. Subiu pelo Partido como quem escala uma pilha de cadáveres, até se instalar ao lado de Stalin, onde coordenou expurgos, Gulags e toda a engenharia da crueldade que o regime exigia. Ambição febril, astúcia oleosa, uma sede de poder que nem os próprios fantasmas conseguiam saciar — Beria era isso tudo, e ainda mais.
Depois, quando o protetor morreu,
o destino fez-lhe a cortesia de um julgamento rápido e uma execução ainda mais
rápida. Décadas depois (nos anos 90), encontraram cadáveres enterrados junto à
sua casa de Moscovo — lembranças discretas de serviços prestados.
E agora, o nosso Beria figurado…
esse não precisa de pistolas nem de caves de tortura. Basta-lhe o silêncio dos
outros.
Quantos “expurgos” conhece,
quantas vidas tem penduradas nos cordéis da sua influência, quantas bocas
aprendeu a fechar sem levantar a voz. Não mata ninguém — não precisa.
Há quem se cale por antecipação,
por prudência, por medo, ou simplesmente porque já percebeu que, perante ele,
falar é uma forma lenta de suicídio social.
Quantos segredos conhecerá?
Quantas pessoas terá nas mãos? Quantas bocas terão aprendido, por prudência, a
permanecer fechadas?
Hoje já não é preciso uma polícia
secreta. Bastam poder, influência, alguns dossiers e uma boa capacidade para
lembrar aos outros aquilo que eles preferiam esquecer.
Naturalmente, isto é apenas uma
comparação.
Qualquer semelhança com a
realidade será, evidentemente, mera coincidência — dessas coincidências que,
por medo e cobardia, fazem muita gente ficar subitamente muito calada.
Estejam descansados, o nosso
Beria Luso, não enterra cadáveres no quintal. Enterra consciências. E fá-lo com
a mesma eficiência burocrática do original.
Ele, ofegante, esbraceja e esforça‑se
por calar tudo à sua volta, como um zelador do
silêncio alheio. Mas há
sempre aquele “único homem de coragem” que lhe escapa — determinado,
persistente e absolutamente convicto de que a sua voz não é para arquivar. O tirano metafórico
tenta, insiste, aperta… e ele continua a falar, com a
serenidade de quem sabe que não se dobra
e é a única nota dissonante que o maestro do silêncio não consegue abafar – de seu nome
ANDRÉ VENTURA.
