2026-09-30

Há quem não goste


André Ventura 

 Há quem não goste do discurso nem dos modos de André Ventura, porém, a sua linguagem "não canónica" não me parece ser um acidente, nem falta de preparação. É uma escolha política consciente e uma necessidade estratégica.

O discurso político tradicional em Portugal cristalizou-se numa linguagem tecnocrática, cheia de eufemismos e de rodeios. É uma linguagem que protege quem fala, mas que afasta quem ouve. Foi criada para falar para dentro do sistema ─ para comentadores, para outros partidos e até para Bruxelas.

O A. Ventura percebeu que havia um Portugal inteiro que já não se reconhecia nessa linguagem. As camadas populares, o interior, os pequenos comerciantes, os reformados, os jovens precários, as pessoas que sentem que trabalham muito, pagam muitos impostos e são as últimas a serem ouvidas. Para essas pessoas, a linguagem polida de São Bento soa a falsidade, a distância, a superioridade.

Quando ele usa uma expressão mais direta, mais crua, mais coloquial, menos polida, quando chama as coisas pelos nomes que as pessoas usam em casa e no café, ele está a quebrar um dos muros da política. Está a dizer: "Eu falo como vocês falam. Eu penso como vocês pensam. Eu não tenho medo de dizer o que vocês dizem todos os dias, mas que ninguém tem coragem de dizer na televisão." 

Isso cria empatia imediata por três mecanismos:

 1. Identificação. O eleitor não ouve um político, ouve um igual. Não é um professor a dar uma lição, é alguém da família a desabafar.

2. Autenticidade percebida. Num tempo de desconfiança total nos políticos, a imperfeição linguística torna-se prova de verdade. Se não está a ler um discurso escrito por assessores, então deve estar a falar de coração.

3. Coragem. Usar linguagem não canónica num espaço onde todos usam gravata e medem as palavras é visto como um ato de coragem, de alguém que está disposto a pagar o preço do politicamente incorreto para defender o povo.

Daí o sucesso estrondoso e crescente. Não é apesar da linguagem não canónica, é por causa dela. Cada ataque dos media tradicionais e dos partidos do sistema à sua forma de falar e de estar reforça a sua mensagem central: "Estão a atacar-me porque eu sou como vocês, e eles têm medo de vocês."

É uma estratégia populista no sentido clássico e mais eficaz do termo: encurtar ao máximo a distância entre o representante e o representado, usando a linguagem como ponte. Desde o Afonso Costa da 1.ª República (de sinal contrário), já lá vai um século, não havia um político igual, o qual tenho a certeza de que irá ser governo neste país, graças à sua inteligência superior que dá dez a zero à maioria da classe política abrileira...

Joao Trigueiros

 

2026-09-25

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876)

 

Mikhail A. Bakunin (1814-1876)


Tenho saudades daquele miúdo que eu era na adolescência quando li sobre MIKHAIL BAKUNIN (1814-1876) e nele achei ter descoberto a fórmula do mundo. Era simples, era limpo, era bonito. O Estado é a opressão, a autoridade é o pecado original, e se tirarmos as correntes, o homem naturalmente bom vai organizar-se sozinho, livre, solidário. Ser anarquista aos 18 anos, na sua expressão mais moderada de matriz libertária, é um ato de fé na humanidade.

Tal o deslumbramento do miúdo que era, fiquei fascinado pelo romance histórico “O Diabo em Pontelungo” (Il Diavolo al Pontelungo), de Riccardo Bacchelli — original de 1927, que li na edição da Portugália Editora de Lisboa de 1966 — envolvendo Bakunin, assim como Carlo Cafiero e Andrea Costa, anarquistas italianos. Neste drama, passado na pequena propriedade de La Baronata, em Minusio, perto de Locarno (1873-1874), à beira do Lago Maggiore, na Suíça, onde Bakunin se instala graças ao apoio do riquíssimo aristocrata e intelectual italiano Carlo Cafiero (1846-1892), que vendeu as suas propriedades em Barletta, na Apúlia, para lhe comprar a vila.
A ideia não era um falanstério fourierista, mas garantir-lhe estatuto de proprietário para obter a cidadania suíça e ter um depósito de armas e alojamento para a internacional anarquista. Dali partiria, em julho de 1874, para Bolonha, onde fez a sua última tentativa insurrecional “para a libertação do mundo inteiro” em agosto de 1874, a qual fracassou com a prisão de Costa a 5 de agosto, obrigando-o a fugir disfarçado de padre.

Priamukhino, propriedade senhorial
 dos Bakunin

Priamukhino, Casa dos Bakunin.















Espoliado por decreto do Czar Nicolau I em dezembro de 1844 — destituído do título de nobre, dos direitos civis e com os bens confiscados —, Bakunin vinha de uma nobreza provincial, não da grande aristocracia da corte. A velha casa senhorial setecentista, uma grande e austera “usadba” — propriedade nobre —, na aldeia de Priamukhino, distrito de Torjok, em Tver, fora comprada pelo seu avô em 1779, o qual vivia do trabalho de mais de 500 servos que foram libertados por Alexandre II em 1861. Esta propriedade compreendia uma fábrica de tijolos destinada a edificar e manter todos os edifícios, e ainda uma manufatura têxtil que produzia pano grosseiro de linho para as necessidades do exército.

Tinha uma bela capela, celeiros, estufas, moinhos, estábulos de gado, viveiros de peixe no rio Ossuga que a atravessava, cascatas de lagos artificiais, banho turco, Colina do Avô, Colina Kutuzov, Alameda das Crianças, e o famoso Carvalho dos Dezembristas — plantado em 1815 pelos irmãos Muravyov, parentes dos Bakunin, em memória da sua estadia. Árvore que caiu numa tempestade no final dos anos 70 e foi replantada pelos descendentes em 1989. Os Muravyov daquela plantação não foram os enforcados de 1825; os cinco executados pelo Czar em 1826, por quererem pôr fim à autocracia e à servidão, eram de outro ramo, como Sergei Muravyov-Apostol.

O nosso herói, foi perseguido e reduzido à pobreza, condenado duas vezes à morte na Saxónia e na Áustria, penas estas que foram comutadas, preso vários anos em condições degradantes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, na qual esteve seis anos em condições degradantes, acaba deportado para um campo de trabalho na Sibéria em 1857, do qual fugiu para o Japão em 1861.

Priamukhino, capela.

Homem viajado e conhecedor do mundo, foi senhor de uma grande cultura, convivendo com os maiores expoentes intelectuais do seu tempo no domínio da política e da filosofia — a sua grande paixão.

Fez parte do “Círculo de Stankevich”, influente grupo de jovens intelectuais russos apaixonados pela filosofia alemã — Kant, Fichte, Schelling e Hegel — organizado no final de 1831 na Universidade de Moscovo por Nikolai Stankevich (1813–1840), figura carismática, filósofo e poeta. Estes dedicavam-se a discutir estética, ética e filosofia, promovendo o iluminismo humanista, opondo-se à servidão e à autocracia imperial.

Jamais poderei esquecer este personagem gigantesco, fascinante, generoso e simultaneamente imprudente que, já decrépito, doente dos rins, perseguido e praticamente sem recursos, está próximo do fim.

Berna, Cemitério de Bremgarten,
sepultura de 
Mikhail Bakunin.
Finou-se a 1 de julho de 1876, com 62 anos de idade, em Berna (Suíça), num hospital onde fora procurar tratamento, e repousa no Cemitério de Bremgarten (Bremgartenfriedhof). Rigorosamente, um século depois da sua morte, juntamente com um grande amigo de aventuras, então simpatizante libertário, o Gustavo Filipe Saraiva, jurista, fui em busca da sua sepultura para lhe prestar a minha homenagem.

Depois cresci, e então vi que o futuro não é o que o Mikhail Bakunin nos prometeu nos seus textos. O mundo é feio, porco e mau, não no sentido poético, mas no sentido literal. Vi o bairro onde tudo pode ser roubado e nada é punido. Vi o Estado enorme para cobrar impostos e minúsculo para proteger quem trabalha. Vi a conversa mole da tolerância infinita a servir de desculpa para a impunidade sem fim. Vi gente boa a ser feita de parva todos os dias enquanto lhe explicam que exigir ordem é ser extremista...

O libertário que fui acreditava que sem autoridade haveria liberdade. O homem que sou hoje percebeu que sem autoridade não há liberdade nenhuma, há só a lei do mais forte, do mais esperto, do mais sem vergonha...

Talvez, por isso, hoje o meu antídoto seja o André Ventura. Não porque me tornei aquilo que eu combatia em jovem. Mas precisamente porque continuo a querer a mesma coisa: que o indivíduo não seja esmagado. Porém, agora percebo quem o esmaga. Não é o guarda da esquina. É o sistema que protege o criminoso e humilha a vítima, é o político que fala de justiça social e vive de subsídios do sistema, é a elite que te chama de intolerante quando tu só estás farto de ser roubado.

O André Ventura é o único que, após décadas de manipulação e opressão, teve a coragem de dizer em voz alta aquilo que muita gente sussurra à mesa do café. Que é preciso ordem para haver liberdade. Que sem polícia, sem fronteira, sem castigo, sem responsabilidade, aquilo que o Mikhail Bakunin chamava de liberdade, vira selva. E na selva, o libertário não sobrevive. Só sobrevive o predador.

Deixei de ter ilusões sobre a bondade natural do homem. Passei a acreditar na necessidade de o conter.

É uma inocência perdida, sim, mas é também uma lucidez ganha.


jt

2026-09-24

OBRIGADO !

 



OBRIGADO.

Se não fossem Vocês, o que seria de nós?

É uma pergunta que nos assombra. Felizmente nunca teremos de responder, porque Vocês estão sempre aí. Firmes. Presentes. Imprescindíveis.

Obrigado por nos protegerem de nós próprios. Nós, ingénuos, achávamos que o país precisava de saúde, de escola, de casas e de salários que dessem para viver. Vocês, com a vossa visão superior, explicaram-nos que o país precisa é de mais comissões, mais observatórios, mais planos estratégicos…

Obrigado pelo vosso sacrifício. Ganhar mal, trabalhar muito, viver com angústia de não saber se vamos chegar ao fim do mês….

Obrigado por nos ensinarem economia. A nos pedirem para apertarmos o cinto enquanto Vocês alargam o vosso. É pedagogia no seu estado mais puro.

Obrigado pela vossa humildade. Por nunca terem culpa de nada. A culpa é sempre do governo anterior, da conjuntura internacional, do povo que não entende, do tempo que não ajudou. É bonito ver tanta gente inocente junta num só sítio.

Obrigado por nos salvarem todos os dias. Se não fossem Vocês, quem nos ia prometer tudo de novo a cada quatro anos? Quem nos ia dizer que agora é que vai ser?

 

Se não fossem Vocês, o que seria de nós?

Provavelmente um país chato, normal e a funcionar. Deus nos livre de tal desgraça.

Continuem. Por nós.


2026-09-03

LUÍS NEVES, ministro das trapalhadas e incompetência...

 Puro humor...


Lavrentiy Beria (1899-1953), esse artesão da sombra, foi o maestro mais longevo da polícia secreta soviética — um funcionário tão dedicado que transformou o terror num expediente administrativo. Subiu pelo Partido como quem escala uma pilha de cadáveres, até se instalar ao lado de Stalin, onde coordenou expurgos, Gulags e toda a engenharia da crueldade que o regime exigia. Ambição febril, astúcia oleosa, uma sede de poder que nem os próprios fantasmas conseguiam saciar — Beria era isso tudo, e ainda mais.

Depois, quando o protetor morreu, o destino fez-lhe a cortesia de um julgamento rápido e uma execução ainda mais rápida. Décadas depois (nos anos 90), encontraram cadáveres enterrados junto à sua casa de Moscovo — lembranças discretas de serviços prestados.

E agora, o nosso Beria figurado… esse não precisa de pistolas nem de caves de tortura. Basta-lhe o silêncio dos outros.

Quantos “expurgos” conhece, quantas vidas tem penduradas nos cordéis da sua influência, quantas bocas aprendeu a fechar sem levantar a voz. Não mata ninguém — não precisa.

Há quem se cale por antecipação, por prudência, por medo, ou simplesmente porque já percebeu que, perante ele, falar é uma forma lenta de suicídio social.

Quantos segredos conhecerá? Quantas pessoas terá nas mãos? Quantas bocas terão aprendido, por prudência, a permanecer fechadas?

Hoje já não é preciso uma polícia secreta. Bastam poder, influência, alguns dossiers e uma boa capacidade para lembrar aos outros aquilo que eles preferiam esquecer.

Naturalmente, isto é apenas uma comparação.

Qualquer semelhança com a realidade será, evidentemente, mera coincidência — dessas coincidências que, por medo e cobardia, fazem muita gente ficar subitamente muito calada.

Estejam descansados, o nosso Beria Luso, não enterra cadáveres no quintal. Enterra consciências. E fá-lo com a mesma eficiência burocrática do original.

Ele, ofegante, esbraceja e esforça‑se por calar tudo à sua volta, como um zelador do silêncio alheio. Mas há sempre aquele “único homem de coragem” que lhe escapa — determinado, persistente e absolutamente convicto de que a sua voz não é para arquivar. O tirano metafórico tenta, insiste, aperta… e ele continua a falar, com a serenidade de quem sabe que não se dobra e é a única nota dissonante que o maestro do silêncio não consegue abafar – de seu nome ANDRÉ VENTURA.