![]() |
| André Ventura |
Há quem não goste do discurso nem dos modos de André Ventura, porém, a sua linguagem "não canónica" não me parece ser um acidente, nem falta de preparação. É uma escolha política consciente e uma necessidade estratégica.
O discurso político tradicional
em Portugal cristalizou-se numa linguagem tecnocrática, cheia de eufemismos e
de rodeios. É uma linguagem que protege quem fala, mas que afasta quem ouve.
Foi criada para falar para dentro do sistema ─ para comentadores, para outros
partidos e até para Bruxelas.
O A. Ventura percebeu que havia
um Portugal inteiro que já não se reconhecia nessa linguagem. As camadas
populares, o interior, os pequenos comerciantes, os reformados, os jovens
precários, as pessoas que sentem que trabalham muito, pagam muitos impostos e
são as últimas a serem ouvidas. Para essas pessoas, a linguagem polida de São
Bento soa a falsidade, a distância, a superioridade.
Quando ele usa uma expressão mais direta, mais crua, mais coloquial, menos polida, quando chama as coisas pelos nomes que as pessoas usam em casa e no café, ele está a quebrar um dos muros da política. Está a dizer: "Eu falo como vocês falam. Eu penso como vocês pensam. Eu não tenho medo de dizer o que vocês dizem todos os dias, mas que ninguém tem coragem de dizer na televisão."
Isso cria empatia imediata por três mecanismos:
2. Autenticidade percebida. Num tempo de desconfiança total
nos políticos, a imperfeição linguística torna-se prova de verdade. Se não está
a ler um discurso escrito por assessores, então deve estar a falar de coração.
3. Coragem. Usar linguagem não canónica num espaço onde
todos usam gravata e medem as palavras é visto como um ato de coragem, de
alguém que está disposto a pagar o preço do politicamente incorreto para
defender o povo.
Daí o sucesso estrondoso e crescente. Não é apesar da
linguagem não canónica, é por causa dela. Cada ataque dos media tradicionais e
dos partidos do sistema à sua forma de falar e de estar reforça a sua mensagem
central: "Estão a atacar-me porque eu sou como vocês, e eles têm medo de
vocês."
É uma estratégia populista no sentido clássico e mais eficaz
do termo: encurtar ao máximo a distância entre o representante e o
representado, usando a linguagem como ponte. Desde o Afonso Costa da 1.ª
República (de sinal contrário), já lá vai um século, não havia um político
igual, o qual tenho a certeza de que irá ser governo neste país, graças à sua
inteligência superior que dá dez a zero à maioria da classe política
abrileira...
Joao Trigueiros

Sem comentários:
Enviar um comentário