2026-11-02

Espera este país ser levado a sério?

 

Acampada

Lisboa, Praça D. João IV


Graças a uma clarividente juíza, absolutamente isenta de qualquer tentação trotskista, aguardo com legítima expectativa a próxima manifestação lisboeta em defesa do aumento do leite aos produtores.

Espero ver o Rossio transformado num enorme pasto revolucionário, povoado por vacas leiteiras simbolicamente conscientes da sua condição histórica, ruminando manifestos enquanto desafiam a tirania dos intermediários.

Estou certo de que não faltarão palavras de ordem vigorosas contra a exploração da vaca trabalhadora e intervenções inflamadas exigindo a socialização dos prados.

 

Afinal, quando a realidade ultrapassa a sátira, resta apenas observar o espetáculo. Tudo isto graças a uma Renata Cambra — Cambra, mesmo, não é gralha de “capra”, o universo tem sentido de humor — que descobriu a fórmula mágica para a habitação em Portugal: é só montar uma tenda no Rossio, pelo tempo que se quiser, e esperar que a juíza Ana de Campos a transforme em património imaterial da democracia.

Brilhante, não é? Enquanto milhares de pessoas andam a fazer contas à vida para pagar uma T1 a preço de palacete, aparece a iluminada que percebeu que a falta de casas é, afinal, um excelente palco. Uma tenda, uma intimação, uma câmara a chorar por causa do Mercado de Natal, e pronto — de repente temos uma causa, uma sentença, e um comunicado pronto para o futuro panfleto eleitoral e aplaudir a criatividade involuntária do argumento.

Face a semelhante espetáculo, resta perguntar: espera este país ser levado a sério?

JT


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