Acampada
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| Lisboa, Praça D. João IV |
Graças a uma clarividente juíza, absolutamente isenta de qualquer tentação trotskista, aguardo com legítima expectativa a próxima manifestação lisboeta em defesa do aumento do leite aos produtores.
Espero ver o Rossio transformado
num enorme pasto revolucionário, povoado por vacas leiteiras simbolicamente
conscientes da sua condição histórica, ruminando manifestos enquanto desafiam a
tirania dos intermediários.
Estou certo de que não faltarão
palavras de ordem vigorosas contra a exploração da vaca trabalhadora e
intervenções inflamadas exigindo a socialização dos prados.
Afinal, quando a realidade
ultrapassa a sátira, resta apenas observar o espetáculo. Tudo isto graças a uma
Renata Cambra — Cambra, mesmo, não é gralha de “capra”, o universo tem sentido
de humor — que descobriu a fórmula mágica para a habitação em Portugal: é só
montar uma tenda no Rossio, pelo tempo que se quiser, e esperar que a juíza Ana
de Campos a transforme em património imaterial da democracia.
Brilhante, não é? Enquanto
milhares de pessoas andam a fazer contas à vida para pagar uma T1 a preço de
palacete, aparece a iluminada que percebeu que a falta de casas é, afinal, um
excelente palco. Uma tenda, uma intimação, uma câmara a chorar por causa do
Mercado de Natal, e pronto — de repente temos uma causa, uma sentença, e um
comunicado pronto para o futuro panfleto eleitoral e aplaudir a criatividade
involuntária do argumento.
Face a semelhante espetáculo,
resta perguntar: espera este país ser levado a sério?
JT

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